Uma boa biblioteca começa por uma estante. Você entra sem saber direito o que procura, passa os olhos pelas lombadas e um título chama atenção. Não era o livro que tinha em mente. Talvez nem soubesse que existia. Algumas leituras começam assim.
Gosto da ideia de haver livros ao alcance das pessoas. Há quem tenha uma casa cheia deles e há quem nunca tenha tido um livro próprio. Há quem possa comprar um romance e há quem precise pensar duas vezes antes de gastar dinheiro com ele. Para essas pessoas, uma biblioteca pública pode ser uma porta.
E essa é justamente a graça: entrar sem saber exatamente o que procura. Na livraria, o livro tem preço. Na biblioteca, ele pode ser descoberto. Você pode levar um autor que nunca ouviu falar, ler algumas páginas, abandonar o livro e voltar outro dia. Ler também é descobrir o que não combina conosco.
Por isso ainda gosto de entrar numa biblioteca e ficar olhando as estantes. Há livros ali que eu nunca procuraria na internet, simplesmente porque não sei que existem. Você vai atrás de um título e acaba levando outro. Às vezes pega um livro pela capa, pelo nome do autor ou porque a lombada chamou atenção. Esse tipo de encontro fica mais difícil quando tudo chega até nós a partir do que já procuramos antes.
Se eu estivesse diante de uma estante hoje, três livros me fariam parar. O primeiro seria “O Estrangeiro”, de Albert Camus. É daqueles romances que parecem simples na primeira leitura, mas continuam gerando questionamentos depois que terminamos. Meursault, o personagem principal, vive uma sequência de acontecimentos que começa com a morte da mãe e muda completamente de rumo depois de um episódio na praia. O livro abre espaço para pensar sobre o absurdo, a indiferença e a existência.
Em seguida, “Relato de um certo Oriente”, de Milton Hatoum. O romance, publicado em 1989, acompanha o retorno de uma mulher a Manaus e a reconstrução da memória de uma família de origem libanesa. As vozes se alternam e as lembranças ganham outras camadas. É uma leitura sobre memória e sobre aquilo que o tempo costuma levar: uma casa, uma família, uma cidade.
O terceiro seria “Montenegro”, de Fernando Morais, sobre o marechal Casimiro Montenegro Filho. É uma biografia, e gosto que ela esteja aqui para lembrar que ler não significa apenas romance. A história de Montenegro também é a história de uma ideia: a de que um país que deseja construir tecnologia precisa antes formar gente capaz de produzi-la.
Montenegro foi responsável pela criação do ITA e do CTA e teve papel pioneiro na construção de uma estrutura de ensino e pesquisa ligada à aviação brasileira. A inspiração veio também do MIT. Há algo bonito nessa história: antes de pensar nos aviões que o Brasil poderia fabricar, ele pensou nos engenheiros que o país precisaria formar. A escola veio antes de muita coisa que se tornou possível.
E é ai que a conversa sobre livros encontre a conversa sobre uma cidade. Uma biblioteca também forma gente, embora ninguém saiba quem será a pessoa que vai entrar por aquela porta. Pode ser um professor, uma engenheira, um escritor, ou simplesmente alguém que encontrou num livro uma pergunta que nunca tinha feito.
Por isso uma biblioteca pública não deveria ser tratada como um lugar onde ficam livros que ninguém mais procura. Ela precisa de acervo, cuidado e portas abertas. Precisa permitir que alguém escolha sem comprar. Precisa oferecer a uma criança, a um jovem ou a um adulto a experiência de puxar um livro da estante e levá-lo consigo. É uma oportunidade simples, mas que pode colocar um livro nas mãos de quem talvez nunca tivesse chegado até ele.
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