OPINIÃO

Quem está educando nossos filhos?

Por Ayne Regina Gonçalves Salviano | especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 3 min

Muitos estudantes estão perdendo a capacidade de se concentrar, esperar, insistir e pensar. Não suportam ficar sentados, abandonam uma questão diante da primeira dificuldade e procuram imediatamente alguém ou alguma coisa que lhes dê a resposta. Pensar dá trabalho. Persistir dá trabalho. Então, para muitos, é melhor desistir. Em casa, a situação não é muito diferente. A inteligência artificial faz a tarefa. O colega fornece a resposta. A internet resolve o exercício. Copiar substitui compreender. Entregar substitui aprender. 

A nota passa a valer mais do que o conhecimento. E quando a nota é baixa, frequentemente o problema deixa de ser o desempenho do aluno e passa a ser o professor. O professor que cobra é chato. O que exige silêncio é chato. O que dá tarefa é chato. O que não deixa dormir na aula é chato. O que não transforma cada minuto em entretenimento é chato. Curiosamente, o professor “legal” é aquele que diverte, conta piadas e exige pouco.

Desde quando aprender precisa ser divertido o tempo inteiro? A escola não é parque de diversões. Educação exige esforço, disciplina, desconforto e frustração. Exige fazer aquilo que não queremos fazer porque sabemos que precisamos fazê-lo. E aqui está a parte que muitos adultos não querem ouvir: a escola não pode fazer esse trabalho sozinha. Tecnologia, telas e rolagem infinita certamente contribuem para esse cenário. Mas existe algo ainda mais poderoso: a educação recebida em casa.

Quando os pais não cobram responsabilidades, não estabelecem limites e justificam cada erro do filho, estão ensinando alguma coisa, ainda que não percebam. Estão ensinando que regras são negociáveis, que consequências podem ser evitadas e que sempre haverá alguém para resolver seus problemas. Quando um estudante desrespeita um professor e os pais imediatamente atacam o professor, que lição está sendo ensinada? 

Quando uma nota baixa provoca reclamação contra a escola, em vez de uma conversa sobre estudo e responsabilidade, que mensagem o filho recebe? Quando os adultos tratam seus filhos como reis, não deveriam se espantar quando eles passam a acreditar que o mundo inteiro é seu reino.

Filhos precisam ouvir “não”. Precisam esperar. Precisam perder. Precisam errar. Precisam receber uma nota baixa quando não estudaram, ou copiaram, ou colaram. Precisam descobrir que nem sempre serão escolhidos, elogiados ou atendidos. Precisam aprender que o direito dos outros tem o mesmo valor que o seu. Isso não é crueldade. É educação. Proteger um filho de toda frustração não o prepara para a vida. Apenas adia o momento em que ele descobrirá, sozinho (e talvez da pior maneira) que o mundo não existe para satisfazer suas vontades. 

Pais, a escola não é substituta da família. Professor não é empregado do aluno. E educação não é serviço de entretenimento. É responsabilidade compartilhada. Está na hora de os adultos voltarem a educar. De cobrar. De estabelecer limites. De sustentar um “não” mesmo quando o filho não gosta. Porque educar dá trabalho. Mas deixar de educar também tem um preço. E esse preço, cedo ou tarde, será cobrado pela vida.

Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista, professora e mestre em comunicação e semiótica com MBA internacional em gestão

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