“Sede de me beber inteira” é um livro curioso. Sua autora, Liana Ferraz, explora a linguagem poética em versos reduzidos, trocadilhos, jogos de palavras, desenhos. Pois é, os desenhos entram aqui como elementos centrais em algumas das (na falta de uma melhor definição) “aventuras poéticas” da escritora. São traços simples, setas, retas, rabiscos a serviço do fazer poético. Leitor mais sisudo ou pouco habituado a “desvios” da tradição pode estranhar. Mas ainda assim se encantar com os achados da autora.
Sua poesia dialoga com a de Paulo Leminski, na mesma inventividade de explorar o mínimo, o reduzido, o formato tampinha. Mas, quem sabe, sem o sarcasmo de muitos dos versos do poeta paranaense. Os temas universais estão lá, no “Sede de me beber...”: amor, relacionamentos, memória... Por meio de sentenças curtas – também chamados de aforismos – aparecem as máximas da poeta: “Desejo a você uma vida cheia de hoje”; “escutar é verbo de amor”; “silêncio, sinfonia da intuição”; “felicidade não é lugar que se habita/é lugar que se atravessa”. Ou nem tão curtas assim: “aos que me enxergam perfeita: agradeço, mas recuso”; “ergo cidades concretas, pesadas e pontiagudas nos meus ombros”; “tenho desejos/ às vezes pétala/às vezes lâmina/cortam-me os dois”.
Os relacionamentos também se fazem presentes, com seus perrengues e encantos: “Poucas coisas são tão libertadoras/ quanto deixar de ser mãe do marido”; “você não gosta de mim... você gosta do meu sim”; “não é porque sou feita de águas/que estou aberta a qualquer navegação”; “querer demais atrapalha o querer”; “textos de amor me dão medo/mas não é do texto que sinto medo/é do amor”; “—me conta: o que você mais gosta em mim? – ainda não saber o que eu mais gosto em você”; “uma vida toda oscilando entre o amor e o medo de amar”.
A maternidade também aparece: “Minha filha me pergunta por que a gente existe./Eu-silêncio buscando palavras./-- Mamãe, posso comer chocolate?/ O dilema existencial derreteu na boca./Engolimos./ Ela doce./ Eu seco”. Ou ainda em: “Hoje resolvi nascer de novo/Dei à luz/ Iluminei/ Nasci criança de domingo/Nasci criança de domingo de sol quando acordei/ Resolvi parir olhos novos em mim (...) Pari pele nova mãos contato/ De tocar meu rosto mãe/E agradecer por nascido de mim/Em mim/Com calma/Rosto mãe/ Pele mãe/ Caminhos /Buracos onde a gente se acha /Labirinto de nascer de novo”.
Numa época de cancelamento, lacração e ódio destilado em garrafões descartáveis, Liana propõe, no poema “Idioma”: “Acho que vamos ter que aprender a falar de novo/pra gente saber conversar/Acho que vamos ter que criar dicionário novo/com verbetes mais delicados e cheios de poréns./ Verbetes quietos de saber escutar/ Verbetes que são assim espirais de perfurar poços profundos./ Palavras morninhas de fazer chá e beber junto (...). Inventar novas palavras e nova voz./De nascer flor de fazer gosto./De nascer árvore de cuidar sombra./Palavra que sabe olhar./ Palavra de começar de novo e perguntar: quem é mesmo você?”.
A escritora e atriz Liana Ferraz nasceu em Bragança Paulista, em 1982. Formou-se em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Campinas e tem doutorado nessa área pela mesma universidade. É autora do romance “Um prefácio para Olívia Guerra”, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2024. Liana coordena oficinas de escrita criativa, além de manter páginas em redes sociais com milhares de seguidores.
Fernando Bandini é professor de Literatura
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