OPINIÃO

A dignidade humana desce ladeira abaixo


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Quando a verdade passou a ser relativa e a meia mentira ganhou espaço, a mediocridade encontrou terreno fértil para crescer. Em nome da paz, a verdade se encolheu, os valores éticos e morais foram jogados para o fundo da gaveta e, quando percebemos, o mar de lama já havia contaminado instituições, relações e até a informação. A maioria da população incauta, ocupada em vencer a difícil luta do cotidiano, paralisada, assiste com incredulidade, a disputa de poder desmedido. 

O politicamente correto, criado para proteger pessoas da discriminação e da violência, acabou produzindo um efeito perverso quando confundiu respeito com conformidade. A busca por inclusão na linguagem e nos comportamentos sociais, com o tempo, sufocou a espontaneidade. As pessoas passaram a medir palavras não pela empatia, mas pelo medo de serem mal interpretadas, expostas ou canceladas. O que nasceu para libertar vozes, em alguns momentos, terminou por silenciá-las.

Enquanto isso, os valores supremos da humanidade foram sendo relativizados. Verdade, liberdade, justiça, responsabilidade, respeito são mais que palavras. Carregam os valores que sustentam uma sociedade minimamente saudável. Valores que, por si mesmos, não transformam o mundo. Precisam ser encarnados em escolhas e ações humanas.

Vivemos agora sob a influência de algoritmos que escolhem o que vemos, influencers que transformam opinião em autoridade e especialistas de ocasião que falam com convicção sobre aquilo que muitas vezes desconhecem. E quanto mais barulho produzem, menos disposição parece haver para ouvir, refletir e reconhecer limites.

É nesse cenário que uma importante disputa de poder chega ao seu momento decisivo. Não cabe antecipar vencedores ou derrotados. Porém, pergunta-se o que estamos aprendendo com tudo isso.

Porque uma sociedade não se sustenta apenas por leis, instituições ou autoridades. O pensamento e a análise crítica é e permanecerá sendo uma arma individual e imbatível do ser humano. Enquanto houver questionamento, há escolhas, valores, transformação. E também, a percepção de que a vida humana tem valor, de que existem limites que não podem ser ultrapassados e princípios que não deveriam ser negociados conforme as conveniências do momento.

Se uma sociedade perde a capacidade de distinguir valores superiores de interesses, conveniências e utilidades, o que acontece com suas decisões?

Nossos governantes, é verdade, nem sempre oferecem bons exemplos. Mas justamente por isso os valores precisam ser maiores que os homens que ocupam o poder.

Sem dignidade, a liberdade vira privilégio. Sem verdade, a justiça perde o chão. E sem valores, qualquer sociedade corre o risco de descobrir, tarde demais, que descer a ladeira é muito mais fácil do que voltar a subi-la.

 

 

 

Rosângela Portela é jornalista, consultora e mentora em comunicação

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