Menos da metade dos adolescentes brasileiros sabe interpretar textos. Segundo os resultados do Pisa 2025, divulgados na última semana, apenas 49% dos estudantes de 15 anos reúnem as habilidades necessárias para compreender ideias escritas. O Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) mede as habilidades em leitura, matemática e ciências, e permite comparar sistemas educacionais de forma global. A avaliação é aplicada em 91 países. No Brasil, é realizada pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), ligado ao Ministério da Educação.
Quando se comparam os resultados brasileiros desde o início do Pisa, o desempenho parece ter melhorado. Em 2006, por exemplo, a média de leitura foi de 393 pontos. Agora, chegou a 408, um aumento de 15 pontos, mas em quase 20 anos. É pouco. Tanto que o Brasil ocupa, apenas, o 52º lugar em leitura entre os participantes. Nos países ricos, o resultado foi pior. Houve queda nos índices de aproximadamente 20 pontos em países como a China, Cingapura, Japão, Finlândia e Noruega, entre outros, o que prova que este é um problema mundial.
Especialistas em educação que analisaram os resultados consideram a situação preocupante porque a leitura é a base da aprendizagem de todas as demais disciplinas. É por meio dela que o estudante desenvolve a capacidade de localizar, avaliar, interpretar e refletir sobre informações, habilidades cada vez mais necessárias em um mundo dominado pela tecnologia e pelo excesso de informação.
Um dos fatores que contribuem para o baixo desempenho em leitura é a perda de atenção e de concentração dos jovens. Textos mais longos, que exigem alguns minutos de dedicação, parecem representar uma dificuldade crescente para esse grupo. Eles não conseguem integrar diferentes informações, estabelecer relações entre as partes de um texto e construir um pensamento crítico.
A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) chama esse comportamento de “leitura apressada”: o leitor passa rapidamente pelo texto, captura informações isoladas e responde sem compreender exatamente o que está sendo perguntado. Ao mesmo tempo, há sinais de menor perseverança diante de tarefas que exigem mais tempo de leitura e esforço. Exercícios longos e atividades que demandam concentração podem acabar sendo abandonados antes de serem concluídos.
A desigualdade também pesa nos resultados. Entre os estudantes brasileiros mais ricos e os mais pobres, há uma diferença de 58 pontos. Considerando que cada 20 pontos correspondem, aproximadamente, a um ano de aprendizagem, a distância entre os dois grupos representa quase três anos. Considerado um dos indicadores de desempenho educacional mais influentes do mundo, o Pisa 2025 entrevistou mais de 760 mil estudantes de 15 anos em 91 países, incluindo cerca de 30 mil adolescentes de aproximadamente mil escolas brasileiras.
Como reverter essa realidade? A resposta começa em casa. Pais e responsáveis precisam retardar o oferecimento de ferramentas tecnológicas às crianças e diminuir o tempo de tela dos adolescentes. É necessário oferecer outras opções para a leitura do mundo, como jornais, revistas, livros, filmes, conversas, curiosidade e tempo para descobrir o mundo. Sem saber interpretar o que se lê, estamos condenando gerações inteiras a não entenderem seus direitos, não exercerem sua cidadania e, principalmente, não exigirem os seus direitos. Educação é um direito, mas ela só acontece quando liberta o indivíduo.
Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista, professora e mestre em comunicação e semiótica com MBA internacional em gestão executiva
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