CRONÍCULAS

Uma bela noite no Terreiro

Por Jeremias Alves Pereira Filho | especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 3 min

Quando a Bia e a Antonia, filha e neta, me chamaram para ir “num Terreiro na Barra Funda”, logo imaginei espaço igual àqueles que todo mundo vê nos filmes nacionais ou documentários na TV. Uma grande área a céu aberto, terreno limpo no piso de terra, baianas trajadas a caráter, Pais e Mães de Santos, Médiuns e auxiliares incorporando pretos velhos e caboclos como “pontes físicas” para as entidades e espíritos, cantando músicas sagradas no compasso sincopado do atabaque e muitas palmas. Não recusei – e nem recusaria – o convite para inusitada celebração do meu aniversário, justamente no dia 11 de maio, segunda-feira. Pegaria mal em todos os sentidos, inclusive porque é esse o dia da semana dedicado a Exu. Quem sou eu para desafiar tal divindade? Aliás, qualquer divindade...

Ficou combinado assim: às 19h eu as pegaria – e peguei – na saída da escola da Antonia ao lado da PUC/SP, na rua Monte Alegre, onde, aliás, frequentei por alguns anos meu Mestrado em Direito Civil e Processo Civil, há longa data. Conhecia bem o trajeto... Lá estavam me aguardando e de lá seguimos direto para a Barra Funda, com parada no Bar Sururú, na própria avenida Barra Funda, para um reforço estomacal consistente em bolinho de bacalhau e croquete de camarão salpicado de pimenta caseira dedo-de-moça, típica de boteco.

Imaginava eu que a jornada seria distante dali, pois não avistei e nem imaginava avistar um terreno limpo num local repleto de comércio, galerias de arte, lojinhas e bares das mais variadas tribos. Imaginei errado e a Bia foi conduzindo o pequeno grupo familiar pela calçada da mesma avenida para logo alcançarmos o Terreiro Ilê Axé Zé do Coco da Bahia, no número 89. Para minha surpresa o “terreiro” estava bem instalado num predinho comprido, medindo cerca de 10x50m, que talvez tenha antes servido de armazém, pois preservava a tradicional porta vertical de correr. Na entrada, recepção organizada com atendentes voluntários cadastrando as pessoas que vinham e pagavam uma taxa simbólica.

No térreo do Templo, à esquerda, um pequeno “velário” para os Anjos da Guarda, cujo ritual foi devidamente cumprido ao acender cada um sua própria vela. Palestra ouvida no simplório e suficiente auditório em ato preparatório para acesso ao piso superior onde já se encontravam os Médiuns, Exu, Mãe Pequeno e duas dezenas de auxiliares responsáveis pela cantoria sagrada e palmas direcionadas para as entidades dispostas no chão, quase aos pés do Pai de Santo, paramentado e sentado no trono ao fundo do salão.

Sei lá, espantado leitor, se descrevi satisfatoriamente o que vi. Confesso que participei do culto com o devido respeito. Recebi um bom “descarrego” de ovo estourado na bacia pelo celebrante principal e fui conduzido pelo braço por uma Mãe Pequeno até Exu, que perguntou o que eu queria dizer a ele e, incorporado, prontamente me aplicou um longo “passe”, rodeando-me com espessas baforadas de charuto e palavras sagradas.

É sócio de Jeremias Alves Pereira Filho Advogados Associados. Especialista em direito empresarial e professor emérito da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Araçatubense nato

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