OPINIÃO

Vozes e rostos

Por Charles Borg | especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 2 min

É preciso preservar e cultivar a dignidade do ser humano. É o que transparece na mensagem que o Papa Leão XIV dirige ao mundo por ocasião do LX Dia Mundial das Comunicações Sociais. O Santo Padre convida as pessoas de boa vontade a refletirem, com seriedade e discernimento, sobre a influência da tecnologia digital. O ideal é ter acesso integral ao texto. Selecionei alguns trechos para tornar conhecido o pensamento do Papa.

O rosto e a voz são traços únicos e distintivos de cada pessoa. Manifestam sua identidade irrepetível e são elemento constitutivo de cada encontro. Rosto e voz são sagrados. O Criador, é bom lembrar, deixou-se conhecer na voz e no rosto de Jesus, o Filho amado. Deus imprimiu no rosto humano um reflexo do seu amor, para que pudesse viver plenamente a sua humanidade através do amor. Preservar os rostos e as vozes humanas significa, portanto, preservar este selo, este reflexo indelével ao amor de Deus.

Cada pessoa possui uma vocação insubstituível e irrepetível, que emerge da vida e se manifesta precisamente na comunicação com os outros. Ao simular vozes e rostos humanos, sabedoria e conhecimento, consciência e responsabilidade, empatia e amizade, os sistemas conhecidos como inteligência artificial não só interferem nos ecossistemas, como também invadem o nível mais profundo da comunicação, ou seja, o das relações entre as pessoas. Preservar os rostos e as vozes significa, em última análise, preservarmo-nos a nós próprios.

Ao encerrar grupos de pessoas em bolhas de fácil consenso e indignação, algoritmos e plataformas enfraquecem a capacidade de escuta e de pensar criticamente, aumentando a polarização social. Embora a IA possa dar apoio e assistência na gestão de tarefas comunicativas, ao abstermo-nos do esforço do próprio pensamento, corremos o risco de deteriorar as nossas capacidades cognitivas, emocionais e comunicativas.

Grande parte da indústria criativa humana corre o risco de ser destruída e substituída pela etiqueta POWERED BY AI, transformando as pessoas em meros consumidores passivos de pensamentos não pensados, de produtos anônimos, sem autoria nem amor. Renunciar ao processo criativo e entregar às máquinas as próprias funções mentais e a própria imaginação significa enterrar os talentos recebidos para crescer como pessoas em relação a Deus e aos outros. Significa esconder o próprio rosto e silenciar a própria voz.

As intervenções não transparentes desses agentes automatizados influenciam os debates públicos e as escolhas das pessoas. A tecnologia que explora nossa necessidade de relacionamentos pode não só ter consequências dolorosas para o destino dos indivíduos, como também prejudicar o tecido social, cultural e político das sociedades. Não podemos nos deixar roubar a possibilidade de encontrar o outro, sem aceitar a alteridade não pode haver nem relação nem amizade. (continua)

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