PADRE CHARLES

Terapia

Por Padre Charles Borg | Especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 2 min

Juntos, mas não necessariamente reunidos! Sendo o ser humano geneticamente gregário, coletivo, estar reunido com o semelhante, integrar uma família, constitui elemento salutar, necessidade básica. Emerge interessante indicativo para a difusa insatisfação perceptível na cultura moderna. O espetacular salto tecnológico, a facilidade de conseguir conforto com um simples toque, sem a necessidade de deslocar-se, representa, na realidade, séria ameaça para a saúde psicológica e para o bem-estar emotivo das pessoas.

O ser humano está sendo habilmente induzido a se imaginar independente. Ilusão. As conexões midiáticas, paradoxalmente, aprofundam o distanciamento entre as pessoas. O tédio e a ausência de propósito acompanham. Salta a formidável pedagogia presente na liturgia sacramental católica. Todo ritual litúrgico se fundamenta na elementar verdade de ser ação de igreja, da comunidade de crentes. Toda ação litúrgica supõe a assembleia reunida. São indivíduos que não apenas estão provisoriamente juntos, mas que estão conscientemente unidos por vitais vínculos espirituais.

São irmãs e irmãos que, atendendo à convocação divina, se encontram para celebrar sua fé, celebrar o mistério da salvação, assumir em conjunto a missão de incidir no cotidiano iluminados pelo Evangelho. Elemento vital dessa reunião é a real presença do Salvador, Jesus Cristo, que promete estar presente toda vez que os irmãos se reúnem em oração. E onde Jesus está, as pessoas se aproximam, não pontual e provisoriamente, mas vitalmente unidos ao Mestre, igual ramos enxertados no tronco da videira.

Esta íntima interação fica explícita nas várias expressões corporais litúrgicas, canto que congrega, gestos e posturas comuns, coreografia ritualista. A liturgia acena à nova civilização fundamentada na caridade promovida pelo Mestre Jesus. Urge resgatar e reforçar a dimensão eclesial das celebrações litúrgicas. Lamentavelmente, séculos de dúbia espiritualidade despojaram a liturgia de seu caráter eminentemente comunitário, reduzindo a participação à conceitos individualistas, intimistas e pontuais.

Batiza-se não porque se quer fazer parte viva de uma comunidade, mas para cumprir obrigação ou tradição. Participa-se da eucaristia não como comensal, alegre e agradecido por integrar uma fraternidade, mas como piedoso fiel, ocupado com suas particulares devoções. Reconhece-se que em muitas liturgias os irmãos estão apenas juntos, participando de um mesmo ritual, mas sem visível vínculo de uma congregação irmanada, feliz por estar reunida, imbuída de firme propósito de progredir na mútua caridade, ciente da divina missão de incidir no cotidiano da vida.

Corretamente compreendida e celebrada de maneira compenetrada, a liturgia transforma, purifica e alimenta o impulso gregário que aproxima pessoas. Divina terapia que liberta do anonimato e redime o relacionamento humano.

O padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba.

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