OPINIÃO

Porteiros

Por Charles Borg | especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 2 min

A caridade é a grife do cristão! Representa o único mandamento deixado pelo Mestre Jesus no momento mais terno da sua peregrinação terrena, e também no contexto mais dramático. Na ceia pascal celebrada na companhia do seu pequeno grupo de apóstolos, Jesus insistia no amor fraterno. Não qualquer amor, mas a caridade como ele a viveu. Amar como ele amou. Fica claro que na mente de Jesus, a celebração da Eucaristia, a celebração, per excelência, em sua memória, deve estar intimamente ligada à prática da caridade.

A caridade que emana dos evangelhos se distingue e se diferencia da humanitária, e louvável, filantropia. Esse tipo de benemerência é, muitas vezes, impessoal. Colabora substancialmente na melhoria das condições de vida de gente necessitada, de uma forma, contudo, impessoal e pontual. A prática da caridade que salta do exemplo de vida do Mestre Jesus é eminentemente pessoal, envolvente.

Jesus toca nas pessoas. Jesus olha nos olhos das pessoas. Jesus se envolve com as situações das pessoas. É a caridade que faz a diferença num mundo, secularmente marcado por divisões, segregações, marginalizações e indiferenças. Ao pedir para amar como Ele vivenciava a caridade, o Mestre Jesus exorta a aproximar-se das pessoas, a envolver-se, em especial com aquela gente que o mundo sistematicamente ignora.

Segue, naturalmente, que praticar a caridade nos moldes evangélicos demanda ruptura com os padrões do mundo. No compasso profano, importa aparecer. Fazer ruído. O discípulo disposto a viver genuinamente a caridade do olho no olho não escolhe destinatário. Este simplesmente surge no cotidiano do agente cristão e o impele a tomar posição, largar a habitual comodidade e envolver-se na inesperada realidade.

Não é possível viver a caridade vivenciada por Jesus Cristo sem profunda conversão e, não raramente, sem dolorosa mudança de hábitos. A caridade evangélica induz a progressivo aprendizado de enxergar a realidade e as pessoas pela lente do esquecido, do ignorado, do invisível. No mesmo compasso, não é possível praticar a genuína caridade evangélica sem disciplina. Por isso mesmo, inteligentemente produtiva. Não uma produção contábil, todavia, tampouco vistosa e promocional, mas, sim, uma intervenção substancial, redentora, almejada e apreciada pelo sujeito assistido.

O socorro que provoca um salto de qualidade na vida do contemplado, livrando-o do infame limbo do anonimato e devolvendo-lhe a condição de gente, ser humano amado e digno. A esses esquecidos, tirados das sarjetas do anonimato, Jesus Cristo, referência da caridade genuinamente humanitária, entregou as chaves dos portões do céu. Por decreto divino, são os porteiros a liberar o acesso à morada eterna. Afinal, na avaliação do Mestre Jesus, bendito mesmo é o discípulo que enxerga o irmão a quem ninguém quer ajudar. Comunga Cristo quem segue suas pegadas!

Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

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