OPINIÃO

Importância da leitura na infância

Por Ayne Salviano | especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 3 min

Como milhões de brasileiros, cresci em uma cidade pequena, sem livrarias. Ainda assim, isso nunca foi um obstáculo para que meu pai alimentasse nossas estantes — sempre grandes, sempre repletas de livros. Todos os vendedores que passavam pela cidade sabiam: não iriam embora sem fechar ao menos uma venda. Seu Eduardo garantia, nem que fosse uma única negociação.

Foi assim que chegaram até mim enciclopédias, a coleção do Sítio do Picapau Amarelo e tantos outros títulos, muito antes da primeira livraria se instalar na cidade. A leitura, em casa, era um ritual de fim de tarde. Meu pai chegava da roça, tomava banho, sentava-se em sua cadeira e lia o jornal inteiro.

Sempre tivemos assinatura dos grandes jornais diários, além do periódico local. Minha mãe se acomodava em um canto do sofá, mergulhada em seus livros. Suas coleções de José Mauro de Vasconcelos e Jorge Amado tornaram-se parte da nossa herança afetiva quando ela partiu.

E eu, que não queria ficar de fora daquele momento, devorava volumes e mais volumes de enciclopédias — Barsa e outras. Assim, fui aprendendo História, Geografia, Biologia e um pouco de tudo. O ritual seguia até a hora do noticiário e, muitas vezes, continuava depois, até o sono chegar.

Anos depois, fiz dos livros os primeiros amigos dos meus filhos. Li para eles ainda na gravidez. Li quando eram bebês. Comprei livros de plástico para o banho, livros de tecido, livros com castelos que se erguiam ao virar das páginas. Eram horas diárias de descoberta e diversão. Todas as noites tinham sua hora de história.

Certa noite, meu filho me surpreendeu: - Hoje sou eu que vou ler para você. E começou. Pensei que tivesse decorado as palavras. Mas não. Ele havia aprendido a ler me ouvindo contar histórias. Aquele momento deixou claro para mim o poder do exemplo e da convivência com os livros. Não tenho dúvidas de que esse hábito contribuiu para que meus filhos se tornassem estudantes diferenciados e bem-sucedidos.

Por isso, acredito que o incentivo à leitura desde a primeira infância precisa ser tratado como uma prioridade urgente no combate às desigualdades educacionais. Mesmo antes de aprender a ler, a criança que ouve histórias exercita o pensamento simbólico. A leitura fortalece conexões neurais e se destaca como um dos estímulos mais completos, pois integra dimensões cognitivas e sociais de forma simultânea. É essa base sólida que garante que, ao chegar à alfabetização, a criança possua um repertório linguístico mais amplo e maiores chances de sucesso.

Segundo especialistas, ler para os pequenos é um treinamento cognitivo essencial. Ajuda a reverter o analfabetismo e a construir uma base consistente de aprendizado desde cedo. A leitura compartilhada, por exemplo, ativa diversas áreas do cérebro ao mesmo tempo, integrando memória, linguagem e imaginação.

Além disso, promove vínculo afetivo. Diferentemente dos vídeos, a leitura cria uma conexão real, um encontro genuíno entre o adulto e a criança. É também um verdadeiro laboratório emocional: por meio das histórias, os pequenos aprendem a reconhecer e nomear sentimentos complexos, como medo e raiva, em um ambiente seguro.

Por fim, ler desenvolve foco e disciplina. Acompanhar uma narrativa exige concentração e estimula a escuta ativa — habilidades fundamentais para o sucesso escolar e para a vida. Cultivar o hábito da leitura na infância não é apenas formar leitores. É formar indivíduos mais preparados, sensíveis e capazes de compreender o mundo ao seu redor.

Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista e professora, mestre em comunicação e semiótica com MBA em gestão

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