LITERATURA

O lirismo amoroso em Cláudio Manuel da Costa 

Por Tito Damazo | Especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 5 min

No texto anterior (14/2) lidei com um dos poemas de Camões que tem como objeto a temática amorosa. Trata-se do soneto 88, primeira parte do livro “Rimas”, cujo verso inicial é “Sete anos de pastor Jacó servia”. Trabalho a que dou sequência: ler analiticamente alguns poemas que desenvolvem a temática de amor sem que o labor poético empreendido tenha como dominante a subjetividade sentimentalista. Que a beleza estética do poema resulte da predominância do tratamento poético que lhe é dispensado, em que pese em seu pendor lírico a sentimentalidade amorosa.

O trajeto que mais ou menos empreendo é o tradicional estilo de época da literatura, ainda hoje, um forte parâmetro didático de se estudar a história literária. Comecei a partir da estética renascentista e continuo com um poeta dos maiores do denominado Arcadismo brasileiro. Partilho do ponto de vista segundo o qual em Cláudio Manuel da Costa o que se tem é um arcadismo-barroco (assim, contemplo o estilo Barroco que, historicamente, precede ao Árcade) em que os grandes críticos o situam.

Em obra das seminais aos estudos da história da literatura brasileira (“Presença da Literatura Brasileira”) Antonio Candido e J. Aderaldo Castello, tratando sobre o poeta, afirmam que Cláudio era grande poeta, com alta consciência crítica. Autor de obra singular, pratica síntese original do que fora o estilo passado (o Barroco) e o do seu presente (o Arcadismo). Era, pois, “um poeta formado sob a influência dos padrões cultistas (uma vertente barroca), mas que deseja” alinhar-se ao estilo árcade de seu presente. Afirmam ainda que “é um intelectual formado na Europa, mas que se propõe exprimir a realidade tosca do seu país”. (Resultou daí) “uma poesia rica sem ostentação, elegante sem banalidade”. (Criou) “um mundo poético em que se sublimam uma requintada sonoridade, o senso dos conflitos da alma, uma consciência nítida dos problemas do seu tempo e das cogitações perenes do homem”.

Essas características se podem ler refletidas na construção de um dos primorosos sonetos de seu livro “Obras” (1768), soneto X: “Destes penhascos fez a natureza/ O berço, em que nasci: oh quem cuidara, / Que entre penhas tão duras se criara/ Uma alma terna, um peito sem dureza! // Amor, que vence os tigres, por empresa/ Tomou logo render-me; ele declara/ Contra o meu coração guerra tão rara, / Que não me foi bastante a fortaleza. // Por mais que eu mesmo conhecesse o dano, / A que dava ocasião minha brandura, / Nunca pude fugir ao cego engano: // Vós, que ostentais a condição mais dura, / Temei, penhas, temei; que Amor tirano, / Onde há mais resistência, mais se apura”.

A “espinha dorsal” do poema se estrutura com o jogo dialético dos versos na tensão dos elementos opostos em confronto. Veja-se: “Destes penhascos (...) O berço em que nasci: oh quem cuidara/ Que entre penhas tão duras se criara/ Uma alma terna, um peito sem dureza! (1ª. estrofe). Toda a 2ª estrofe se constrói com este jogo linguístico opositivo: “Amor que vence Tigres (...) render-me; (...) guerra tão rara, / que não me foi bastante a fortaleza” (ou seja, os penhascos). Nos tercetos: (...) conhecesse o dano (...) minha brandura; (...) a condição mais dura, / Temei penhas; que Amor tirano, / Onde há mais resistência, mais se apura”.

Temos, pois, uma poesia em que se ressalta o esmero construtivo de forma a estabelecer o equilíbrio entre o sentimento do amor sublimado  em linguagem de tons barrocos, e a consciência de quem procura projetar um vezo de sentimentalidade de cunho civilizatório numa realidade em que a natureza ainda prevalece, com as asperezas de sua primitividade, com seus espaços rústicos, toscos, rígidos, mas que ainda assim não capazes de livrá-lo do tirania amorosa “que mais se apura”, quanto mais resistência encontra.

A análise demonstra como a forma incisiva e poderosa da tirania desse sentimento amoroso exerce atuação capaz de atingir o objeto de sua ação. Numa perspectiva poética em que, valendo-se de elementos linguísticos adequados a melhor desenvolver aquela percepção, o sujeito poético, como se numa demonstração em pensamento filosófico dialético (pois o soneto é a forma poemática típica desse raciocínio poético de natureza dialética), formula a empedernida, insensível e imbatível atuação do amor contra a alma terna, branda do seu objeto. Por mais que faça, o objeto atingido pela ação férrea do amor se sente incapaz de vencê-lo.

Para expor poeticamente esse estado de tensão vivido na “peleja” cruel contra “Amor tirano”, o sujeito poemático emprega, pois, uma linguagem que se molda ao pensamento dialético num conjunto de contraditórios que decorrem desse estado de sentimento que o acomete. Como se disse, a começar usando a forma clássica, um soneto em decassílabo.  São os quartetos decassílabos heroicos (6ª. e 10ª. sílabas tônicas). Já nos tercetos, os primeiros versos são sáficos (4ª., 8ª. e 10ª. sílabas tónicas), os segundos e terceiros são heroicos.

Quanto à rima, tem-se que o esquema dos quartetos é a-bb-a. Iguais entre si, mas opostos ao dos tercetos: c-d-c ao primeiro e d-c-d ao terceiro. Estes, por sua vez, além de opostos àqueles, são também opostos entre si. Note-se, pois, que inclusive na organização de sua forma, o soneto apresenta o contraditório dos jogos opositivos, compondo, em sintonia com os das imagens poéticas centrais estabelecidas, o perfazimento do todo de sentido do poema, sendo a antropomorfização dos elementos fundamental e decisiva à sua construção: a natureza faz dos penhascos o berço; o amor que vence os tigres rende (“-me”) e declara guerra; o amor tirano mais se apura onde mais é resistido.

Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

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