IKARO KADOSHI

Drag queen de SJC passou por exorcismo e tentativa de 'cura gay'

Por Leandro Vaz | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 3 min
Da redação
Reprodução
Ikaro Kadoshi
Ikaro Kadoshi

"Você não é digno de pisar a mesma calçada que a gente." As palavras foram ditas por um avô ao próprio neto — adolescente, gay, e completamente sozinho diante da fúria familiar. Quem revela o episódio, pela primeira vez publicamente, é Ikaro Kadoshi, drag queen e apresentador natural de São José dos Campos, em entrevista concedida ao podcast Modo Vale.

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Hoje uma das figuras mais relevantes da cultura LGBTQIA+ no Brasil e no mundo, Ikaro carrega uma história de violência que contrasta com a potência de sua trajetória artística. O relato, feito em suas próprias palavras, expõe uma sequência de abusos -- físicos, psicológicos e espirituais -- praticados quando ele tinha apenas 14 anos.

"Meu avô era quase fanático"

A rejeição partiu da família paterna, encabeçada pelo avô, descrito por Ikaro como "extremamente religioso, quase fanático". A hostilidade era explícita e pública: ao cruzar com parentes no centro da cidade, era o próprio Ikaro quem precisava mudar de calçada. "A família, por parte de pai, foi o meu grande algoz", afirmou o apresentador.

Determinado a "transformar o neto em homem a todo custo", o avô orquestrou três intervenções em sequência.

Três tentativas de "cura"

Sob pretexto de uma conversa, o adolescente foi levado a um prostíbulo. "Quando eu percebi, ele tinha me trancado numa porta, e uma mulher veio e me estuprou à força , porque eu teria que virar homem à força, aos 14 anos", relatou Ikaro.

A segunda foi de natureza religiosa. Logo após o abuso, o avô o conduziu até o bairro Alto de Santana, em São José dos Campos, onde seis freiras teriam realizado uma sessão de exorcismo com duração de aproximadamente uma hora. O objetivo declarado era expulsar "o demônio da luxúria" que, segundo os presentes, habitava no jovem.
A terceira tentativa foi a hipnose que, segundo Ikaro, não chegou a ser concluída.

"Resquícios de era medieval"

Décadas após os fatos, Ikaro falou no podcast para alertar. "Eu sou o resultado de resquícios de era medieval que ainda existem hoje", disse. "Várias crianças ao longo desse país passam por isso todos os dias, silenciosamente."

Para ele, o silêncio em torno dessas práticas tem um custo concreto e irreversível: vidas. "Nós perdemos muito dos nossos. Tiram a própria vida por não aguentarem, por não entenderem que a pessoa que deu a vida a rejeita como se fosse um lixo."

Quem é Ikaro Kadoshi

O peso do relato ganha ainda mais contorno quando se conhece a trajetória de quem o narra. Ikaro Kadoshi é hoje um dos nomes mais expressivos da cultura drag no Brasil, com uma carreira que atravessa fronteiras.

Com performances realizadas em países da Europa e dos Estados Unidos, Ikaro foi host de drags internacionais que se apresentaram no Brasil, incluindo a icônica Bianca Del Rio. É, ainda, reconhecido como a primeira drag queen da América Latina a apresentar um programa de televisão: ao lado de Penelope Jean e Rita von Hunty, comandou duas temporadas de Drag Me As a Queen, no qual as três transformavam mulheres em drags após mergulhar em suas histórias de vida. O programa é reprisado no canal E!.

Mais recentemente, Ikaro marcou mais um capítulo histórico ao apresentar Caravana das Drags, reality disponível no Amazon Prime Vídeo, ao lado de Xuxa.

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