OPINIÃO

Cecília Meirelles era analfabeta?


| Tempo de leitura: 2 min

Há tempos, ouvi uma pergunta curiosa feita por uma criança.

— Você acredita que a Cecília Meirelles não sabia ler?

Mas antes de chegar a essa pergunta, é preciso voltar um pouco na história.

Muitas pessoas que veem uma criança com um simples gibi debaixo dos braços ou com um álbum de figurinha, enxergam uma cena comum. Causaria estranheza, contudo, encontrar um menino de seis anos caminhando pela rua com um clássico da literatura brasileira.

Mas nem tudo está perdido.

Há pais que compreenderam que o gosto pela leitura não nasce de repente, e já incorporaram um gesto simples: contar histórias aos filhos antes de dormir. Perceberam que se dedicarem vinte minutos diários de leitura de histórias para seus filhos, ao final do mês terão proporcionado dez horas de convivência com os livros. Mas, além do tempo,  terão possibilitado momentos de imaginação compartilhada, de ampliação do vocabulário e de descoberta do mundo. A criança que escuta histórias aprende, desde cedo, que os livros são portais para outros lugares, outras épocas e outras vidas.

Quando estive à frente da Secretaria da Educação, nas escolas municipais, havia diversos projetos voltados ao incentivo da leitura. Era uma política da secretaria que, da Educação Infantil ao Ensino Fundamental, os livros deveriam fazer parte da rotina das crianças. O objetivo era formar companheiros inseparáveis para toda a vida, ou “fiéis escudeiros” da leitura.

Entre os projetos, havia um especialmente interessante, chamado “Gentileza Literária”. Nele, os alunos visitavam outras classes para contar a história de um livro que haviam lido. A proposta era simples, mas muito rica: permitir que as crianças ocupassem alternadamente o papel de leitor e de ouvinte.

Em uma das minhas visitas a uma escola, encontrei no corredor, alguns alunos do segundo ano que retornavam animados de outra sala onde tinham acabado de apresentar sua história. Aproveitei para puxar conversa.

— Que história vocês contaram?

— O Menino Azul, da Cecília Meirelles.

— Eu não conheço essa história. Alguém pode me contar?

Foi quando um menino me olhou e perguntou:

— Você acredita que a Cecília Meirelles não sabia ler?

Antes que eu respondesse, outro colega o interrompeu:

— Não é a Cecília que não sabia ler! Era o menino azul, seu burro!

— Ah, é mesmo…, Mas a história é assim…

Naquele momento percebi que o essencial não era a precisão da informação, mas o fato de que aquelas crianças estavam vivendo a experiência da leitura.

Posso afirmar, sem medo de exagero, que estimular a leitura desde cedo é um dos maiores presentes que se pode oferecer a uma criança. Quem descobre os livros na infância raramente se separa deles na vida adulta.

Francisco Carbonari 

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