OPINIÃO

Indústria Brasileira no Labirinto


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Os dados divulgados nesta sexta (03) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), via Pesquisa Industrial Mensal (PIM), trazem um alerta que não podemos ignorar: a produção industrial brasileira registrou uma queda de 0,7% em fevereiro na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Embora o setor venha de uma base de recuperação pontual em meses isolados, esse recuo anual expõe a fragilidade estrutural de um motor que insiste em engasgar. Como vice-presidente do Ciesp e entusiasta do desenvolvimento regional, sinto que é meu dever propor uma reflexão franca: por que o Brasil ainda patina no setor industrial?

A resposta não é simples, mas passa pela persistência do chamado "Custo Brasil". Enfrentamos uma carga tributária complexa, juros que, embora em trajetória de ajuste, ainda punem o investimento em bens de capital, que, inclusive, sofreram uma queda drástica de 13,5% neste último levantamento do IBGE. Quando a indústria de bens de capital recua, o sinal é claro: o empresário está receoso em modernizar seu parque fabril. Sem investimento em máquinas e tecnologia, a produtividade estagna.

Estamos patinando porque, historicamente, o país aceitou uma desindustrialização precoce, trocando o valor agregado das fábricas pela exportação primária. Mas o mundo mudou. A nova ordem global exige uma "Indústria Verde" e digitalizada. Se não revertermos esse cenário agora, perderemos a janela da transição energética e da Inteligência Artificial. Reverter o declínio industrial é vital para o Brasil por uma razão matemática e social: o emprego industrial paga, em média, salários 25% superiores aos demais setores e é o que mais impulsiona a inovação tecnológica, segundo dados da Confederação Nacional da Indústria.

Em Jundiaí, somos um exemplo de resiliência. Nosso ecossistema industrial é pujante, mas não estamos imunes ao cenário nacional. Precisamos de políticas de Estado que garantam segurança jurídica e incentivos reais à inovação. No campo das estratégias setoriais, o programa "Nova Indústria Brasil", que projeta mobilizar vultosos recursos em crédito e subsídios até o final de 2026, representa um balizador de intenções estruturais. Contudo, a eficácia deste mecanismo depende de uma execução que rompa gargalos burocráticos e assegure que o fomento chegue efetivamente à ponta, especialmente ao pequeno e médio industrial, que compõem o alicerce de sustentação de nossas cidades.

Não podemos nos contentar com crescimentos marginais que logo são anulados por quedas mensais. A indústria é o alicerce da soberania nacional. Sem uma base fabril forte, seremos eternos importadores de inteligência e exportadores de matéria-prima. É hora de decidir se queremos ser os protagonistas da quarta revolução industrial ou meros espectadores do progresso alheio. O tempo, assim como os dados do IBGE, não espera. A urgência de uma agenda de competitividade sistêmica é, hoje, a nossa maior prioridade. O futuro industrial do Brasil exige visão de longo prazo e segurança institucional.

Francesconi Júnior é 1º vice-presidente do Ciesp e diretor da Fiesp

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