PADRE CHARLES

Feições

Por Charles Borg | Especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 2 min
A luz da ressurreição não uniformiza, expõe, ao contrário, e aperfeiçoa os predicados pessoais
A luz da ressurreição não uniformiza, expõe, ao contrário, e aperfeiçoa os predicados pessoais

Tiranos são todos iguais! Santos são todos diferentes. Curioso, como o comportamento dos ditadores segue sempre o mesmo padrão. A estratégia é linear, ameaças, medos, intimidações! Investem no reino das trevas pelo simples e bom motivo de que, no escuro, rostos ficam indecifráveis, movimentações imperceptíveis. O mau se dá bem nas sombras. A escuridão esconde sujeiras. Contudo, por mais densa que seja, a noite não resiste ao mínimo facho de luz. A chama de um fósforo é suficiente para vencer a mais densa escuridão.

É a vitória da luz que se celebra na Páscoa. Tudo, na verdade, que se deu na vida de Jesus Cristo aconteceu em benefício do ser humano. Cabe à inteligência humana ler nas entrelinhas e aprender com os acenos aí transmitidos. A paixão e morte de Cristo representaram momentaneamente o sucesso das sombras, o triunfo do mal. Ao sair vitorioso do túmulo, Jesus Cristo restabelece a supremacia da luz sobre as trevas.

Na luz da ressurreição as pessoas se identificam, rostos ganham contornos próprios, destacando a riqueza das diferenças que existe entre os indivíduos. No escuro não há como distinguir feições. Na luz de Cristo, o crente emerge na riqueza de sua singularidade, com suas próprias capacitações e individualidades. Na luminosidade da ressurreição sai-se do anonimato. Configurado pela luminosidade da ressurreição, o crente se vê investido de um brilho próprio, habilitado a dissipar as trevas que ameaçam sua subsistência, como também a subsistência de seu entorno.

Mesmo partilhando da única luz original, a pascal luz de Cristo, os filhos da luz preservam suas particularidades e destacam sua singularidade. A luz da ressurreição não uniformiza, expõe, ao contrário, e aperfeiçoa os predicados pessoais. À semelhança do sal que, mesmo sendo idêntico em sua composição, realça o paladar próprio a cada alimento.

Compreende-se porque o entusiasmo gerado pela Páscoa do Senhor Jesus Cristo nunca se encerra em celebrações rituais. Tampouco se restringe a templos. A fé no Ressuscitado obrigatoriamente induz a ultrapassar os limites dos templos. A luminosidade pascal não se esgota em rubricas litúrgicas. É na rua que se professa a fé no ressuscitado! É nas fábricas e escritórios que se proclama a fé no ressuscitado! É na política que se testemunha a fé na vitória da luz sobre as trevas. É no cotidiano da vida, em suma, que se valida a fé no ressuscitado.

A fé no ressuscitado naturalmente transforma vidas, altera prioridades, corrige rumos. Cirurgicamente coerente, em seu primeiro encontro com os discípulos, na manhã da ressurreição, o ressuscitado Jesus insiste em destrancar portas, em sair pelas as ruas, em reacender esperanças, em semear paz, em irradiar alegria. Prosseguir, enfim, com o alvissareiro Evangelho da vitória da luz sobre as trevas, da supremacia da fé sobre o medo, do serviço sobre o domínio. Tempos novos! Revigoradas feições! Feliz Páscoa!

Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

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