OPINIÃO

O abismo entre o discurso, a prática e o ser


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A era do parecer vem sobrepujando o ser. A “humanidade” (como sujeito da ação) está publicada, declarada inflamadamente aos quatro cantos do mundo – norte, sul, leste, oeste –, como num rastro de vento. E hipocritamente é julgada através do olhar midiático, “sem noção” de seus próprios atos, numa proliferação de bolhas de verdades, muitas vezes, infundamentadas, pois buscar, pesquisar, verificar, leva tempo. É preciso refletir e comparar com o repertório de conhecimento adquirido durante a experiência de vida, que é única e intransferível.  Ah! É verdade, as pessoas estão emburrecendo... perdendo a capacidade de reflexão e, portanto, de decisão. Há vários estudos comprovando o fato (é só perguntar para IA).

Consequentemente, tudo ficou relativo, inclusive o que é ético. A verdade de uma bolha pode não ser o da outra. Até aí, tudo bem. O problema é que a cegueira e a ignorância vem tomando conta do bom senso, e a máxima “não faça aos outros o que você não quer que façam a você” caiu na vala do esquecimento. O discurso de inclusão e equanimidade não condizem com as ações cotidianas. Os momentos estão registrados, amplamente documentados nas mídias sociais, mas na prática o que vale é o que é melhor para o meu “querido umbigo”.

Nas redes sociais e nos comunicados corporativos, o discurso é impecável. Palavras como "diversidade", "acolhimento" e "empatia" saltam aos olhos em fontes elegantes e cores vibrantes. No entanto, se descermos um degrau e observarmos o cotidiano, a conta raramente fecha. A hipocrisia atual reside justamente nesse abismo, na qual a bandeira da inclusão é usada para construir uma imagem pública virtuosa, enquanto as atitudes, no "offline", permanecem presas a velhos vícios de exclusão.

É muito fácil postar uma frase de apoio a uma causa. O difícil é, no silêncio de um processo seletivo ou em uma roda de amigos, dar voz a quem pensa diferente ou oferecer espaço real para quem o sistema costuma ignorar. O que vemos é uma inclusão seletiva. Inclui-se quem convém, quem não desafia o status quo e quem ajuda a manter a estética da bondade.

A contradição é o veneno da confiança. Para que a inclusão deixe de ser um slogan e se torne realidade, precisamos resgatar a honestidade intelectual. Menos "lacração" e mais coerência. Menos palestras motivacionais e mais escuta ativa. Se você não quer ser excluído por sua opinião, por sua origem ou por seu jeito de ser, por que o faz com o próximo sob o pretexto de uma suposta superioridade moral.

A verdadeira inclusão não precisa de holofotes. Ela acontece no respeito diário, na paciência com o aprendizado alheio e, acima de tudo, na integridade de agir conforme se fala. Antes de exigir que o mundo mude, vale a pena olhar no espelho e se perguntar: "Eu estou fazendo ao outro o que gostaria que fizessem comigo?".

Rosângela Portela é jornalista, mentora em comunicação

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