EDUCAÇÃO

'Descançar': Escola cívico-militar tem erros de grafia no 1º dia

Por Bárbara Sá | da Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min
Reprodução
Os monitores militares em sala de aula
Os monitores militares em sala de aula

Alunos de uma escola estadual de Caçapava, no interior de São Paulo, tiveram aulas de comandos militares ministradas por monitores do modelo cívico-militar, com registro de erros de grafia no quadro, no início do ano letivo. A Secretaria da Educação do estado afirmou que a situação foi pontual, ocorreu no primeiro dia de implementação do programa e não faz parte da rotina prevista.

Durante a atividade, palavras como "descançar" e "continêcia" foram escritas de forma incorreta no quadro. As grafias corretas são "descansar" e "continência". Após ser alertado, o monitor corrigiu os termos ainda durante a aula.

A atividade fazia parte de uma apresentação inicial relacionada à ordem unida, conjunto de movimentos padronizados comuns à formação militar, e foi conduzida por policiais militares aposentados que atuam como monitores no modelo cívico-militar adotado pela rede estadual.

O episódio levantou questionamentos sobre os limites da atuação desses profissionais, uma vez que a secretaria havia informado anteriormente que os monitores não entrariam em sala de aula e não ministrariam atividades pedagógicas.

Segundo a pasta, os monitores militares não devem atuar em sala de aula exercercendo função pedagógica, e não faz parte da rotina entrarem na sala. A pasta reforçou ainda que todo o conteúdo pedagógico é elaborado e aplicado pelos docentes da escola. E, neste início de implementação, os monitores estão passando orientações sobre as atividades de disciplina e promoção de valores cívicos.

Todos os monitores do Programa Escola Cívico-Militar, de acordo com a gestão estadual, serão submetidos a processos semestrais de avaliação de desempenho para verificar adaptação e permanência em cada unidade escolar.

Em nota, a pasta reiterou que o conteúdo pedagógico segue sob responsabilidade exclusiva dos professores. Os monitores atuam no apoio à rotina escolar, com foco em disciplina, respeito e valores cívicos.

A Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) repudiou o modelo cívico-militar, que classifica como inconstitucional.

A entidade voltou a criticar a contratação de militares aposentados sem debate com a comunidade escolar e afirmou que, mesmo sem ministrar aulas, os monitores mantêm contato direto e diário com alunos sem formação pedagógica adequada.

Ao todo, 11 escolas estaduais do Vale do Paraíba iniciaram 2026 no modelo cívico-militar, distribuídas em dez cidades da região. A nova rotina passou a vigorar nesta semana, com o início do ano letivo.

Em todo o estado, o programa alcança cerca de cem escolas da rede paulista. Ao todo, 208 policiais militares aposentados passaram a atuar como monitores nas unidades participantes, que atendem aproximadamente 53 mil alunos, o equivalente a cerca de 1,5% das matrículas da rede.

À Folha, o secretário executivo da Secretaria Estadual de Educação, Vinicius Neiva, afirmou que a quantidade de monitores por escola ainda está em avaliação e será definida conforme a realidade de cada unidade. Segundo ele, a implantação do modelo não altera a proposta pedagógica da rede estadual.

"Os militares não entram em sala de aula para interferir no conteúdo pedagógico. O modelo prevê apoio à rotina escolar e a oferta de uma disciplina no contraturno voltada à cidadania", disse Neiva.

Implementação do programa

Promessa do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), o programa das escolas cívico-militares deveria ter começado em 2025, mas foi adiado após decisões judiciais. A implementação tem custo estimado de R$ 17 milhões por ano, destinados ao pagamento dos militares aposentados.

Eles recebem uma diária de R$ 301,70, valor que pode chegar a cerca de R$ 6.000 mensais, somado à aposentadoria, caso cumpram carga máxima de 40 horas semanais. A maioria dos selecionados é composta por praças, para os quais não é exigido ensino superior.

A Apeoesp afirmou que o modelo parte do "falso pressuposto" de que a presença de militares é necessária para impor disciplina e promover civismo nas escolas, papel que, segundo o sindicato, cabe aos professores, por meio da formação pedagógica e do trabalho transversal em sala de aula.

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