ARTIGO

IA avança, mas seguimos despreparados para lidar com o humano

Por Marina Rezny | Semente – Saúde Mental e Desenvolvimento Humano
| Tempo de leitura: 3 min

A inteligência artificial avança em ritmo acelerado, automatizando processos, ampliando a produtividade e redefinindo o futuro do trabalho. Enquanto a IA avança mais rápido do que a competência humana, um paradoxo se torna cada vez mais evidente: avançamos tecnologicamente sem a mesma evolução nas habilidades básicas de convivência, escuta e responsabilidade relacional.

O adoecimento emocional deixou de ser um fenômeno isolado. Dados do INSS mostram que os transtornos mentais estão entre as principais causas de afastamento no país. A Organização Mundial da Saúde reconheceu o burnout como um fenômeno ocupacional, associado a contextos marcados por má gestão, pressão contínua e relações disfuncionais. Esses números, no entanto, refletem apenas a ponta de um problema mais profundo.

Essa realidade não está restrita aos grandes centros. Após mais de 40 anos vivendo em São Paulo, deixei a cidade e me mudei para uma propriedade rural no município de Lavínia. A mudança permitiu desacelerar e observar com mais atenção dinâmicas humanas que, muitas vezes, passam despercebidas no ritmo acelerado das capitais.

No interior, é possível identificar padrões sociais próprios de cidades menores. São municípios onde grande parte da população se conhece, compartilhar uma informação pessoal frequentemente significa torná-la pública. Essa percepção gera receio de buscar apoio psicológico ou emocional.

O medo de exposição, de rótulo ou de julgamento leva muitos a esconder vulnerabilidade, mesmo em sofrimento intenso. O silêncio vira defesa, agravando quadros emocionais.

Observa-se também a normalização do alto consumo de álcool como prática social frequente nesses municípios. Nesse contexto, o álcool atua como contenção informal do sofrimento e como recurso paliativo diante da dificuldade de nomear conflitos emocionais, familiares ou existenciais.

A comparação constante com o outro e a resistência a admitir a infelicidade, os conflitos conjugais ou a fragilidade emocional reforçam padrões culturais que desestimulam a busca por ajuda. Esse comportamento, profundamente enraizado, atravessa diferentes contextos da vida social.

Venho do mundo corporativo e parte do meu olhar foi moldada por essa experiência. Foram mais de duas décadas observando poder, silêncio e exaustão emocional. Mas, ao ampliar o olhar, o problema não começa nem termina nas empresas.

O que se impõe é a necessidade de uma educação emocional e relacional de forma mais ampla — nas escolas, nas famílias e nas comunidades. Professores estão exaustos. Crianças e adolescentes chegam aos espaços de aprendizagem carregando conflitos que não encontram escuta. Adultos seguem repetindo padrões que nunca foram elaborados.

Quando um indivíduo chega a uma empresa sem conseguir se sustentar emocionalmente, ou quando reage com agressividade, o problema raramente começa ali. Ele é resultado de um percurso anterior, marcado por silêncios, omissões e pela ausência de preparo para lidar com frustração, limites e convivência.

Inserido no Janeiro Branco, mês dedicado à conscientização sobre saúde mental e fortemente impulsionado pela nova NR1, este debate precisa ultrapassar setores e rótulos. Não se trata apenas de trabalho, desempenho ou produtividade. Trata-se de como estamos formando pessoas — e de como temos falhado em oferecer espaços seguros para que o sofrimento possa ser reconhecido antes de se tornar ruptura.

A tecnologia continuará avançando. O verdadeiro desafio para empresas e comunidades é decidir: que tipo de seres humanos estamos nos tornando?

Que as empresas possam atuar além da norma e contribuam para a formação de líderes. Não líderes perfeitos, mas líderes conscientes do impacto que geram na vida das pessoas.

Marina Rezny é palestrante e mentora formada em Comunicação Social, com especialização em Neurociência (Makenzie), Psicanálise (IBRAPSI) e Coaching e Mentoring (FGV).

 

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