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Autismo severo expõe rotina invisível de família de policial

Por Guilherme Renan | da Redação
| Tempo de leitura: 2 min
Arquivo da Família
CB Freitas ao lado do filho Pedro, em um retrato de cuidado, afeto e dedicação diária além da farda
CB Freitas ao lado do filho Pedro, em um retrato de cuidado, afeto e dedicação diária além da farda

A rotina do policial militar Maicon Henrique de Freitas Carlos começa muito antes de qualquer chamado via rádio. Longe das sirenes e das ocorrências, o maior desafio está dentro de casa: o cuidado integral do filho Pedro, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 3 de suporte, deficiência intelectual profunda e uma síndrome genética rara ligada ao gene ANK2.

Pedro não é verbal, não possui autonomia e depende de acompanhamento permanente. As crises comportamentais são frequentes, intensas e imprevisíveis, muitas vezes marcadas por autoagressões, gritos prolongados e desorganização sensorial severa. Para a família, não há pausas nem previsibilidade — apenas a necessidade constante de vigilância e acolhimento.

Diagnóstico raro e suporte total

A síndrome relacionada ao gene ANK2 é considerada rara e está associada a alterações neurológicas significativas. Especialistas apontam que mutações nesse gene comprometem a comunicação entre neurônios, podendo resultar em autismo severo, déficits cognitivos profundos, ausência de fala, epilepsia e dependência vitalícia. Quando combinada ao TEA nível 3, como no caso de Pedro, o quadro exige suporte total e contínuo.

O diagnóstico veio cedo, antes dos dois anos de idade. Ao perceber sinais atípicos no desenvolvimento do filho, Maicon e a esposa buscaram avaliações médicas e iniciaram terapias o quanto antes. A detecção precoce permitiu intervenções imediatas, mas não reduziu o impacto emocional nem a complexidade da jornada que se desenhava.

Entre a farda e o cuidado permanente

Conciliar a exigente carreira na Polícia Militar com a realidade vivida em casa impõe um desgaste físico e psicológico permanente. As noites costumam ser interrompidas por crises, o descanso é fragmentado e a preocupação com o futuro se mantém constante. A pergunta sobre quem cuidará de Pedro quando os pais não puderem mais acompanha silenciosamente a rotina familiar.

Outro desafio é o financeiro. Sem acesso a uma rede pública suficiente, a família arca sozinha com terapias intensivas, medicamentos, fraldas, consultas especializadas, cuidadores e adaptações no ambiente doméstico. Os custos são elevados, contínuos e inevitáveis. Até o momento, não há auxílio governamental que cubra as necessidades impostas pela condição do filho.

Uma realidade invisível para milhares de famílias

A história de Maicon, de sua esposa e de Pedro revela uma realidade compartilhada por milhares de famílias brasileiras que convivem com deficiências severas e raras. São histórias pouco visíveis, marcadas por sobrecarga, resistência e amor incondicional, em um cenário em que o suporte do Estado ainda é insuficiente.

Mais do que um relato individual, o caso expõe um debate urgente sobre políticas públicas, inclusão e responsabilidade social. Um lembrete de que, por trás da farda de um agente de segurança, existe um pai; por trás de uma criança em crise, existe dor; e, por trás de muitas famílias, existe um país que ainda precisa aprender a enxergar, ouvir e agir.

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