Araçatuba, que comemora 117 anos de fundação nesta terça-feira, 2, tem uma trajetória marcada por encontros, conflitos, avanços e ciclos econômicos que transformaram um trecho de mata fechada em uma das cidades mais influentes do oeste paulista.
A história começa muito antes das frentes exploratórias, com a presença dos povos Kaingangue e Coroados, habitantes originais da região compreendida entre os rios Tietê, Paraná e Paranapanema. Eram grupos nômades, estrategistas, profundamente ligados ao território — e que sofreriam dramaticamente os impactos da colonização.
O salto urbano só viria no início do século 20, durante a marcha para o oeste promovida pelo Estado de São Paulo. A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) tornou-se o eixo estruturante da ocupação. Trabalhadores abriram caminho em meio à mata, e um simples vagão de madeira, usado como dormitório, serviu de marco inicial para o futuro município. Em 1908, com a chegada dos trilhos ao km 280, formou-se o primeiro núcleo populacional, composto por ferroviários, comerciantes e migrantes.
A origem do nome Araçatuba é alvo de debates. As hipóteses incluem a junção de termos indígenas que significariam “abundância de araçás”, a referência a corredeiras ou até uma possível evolução de topônimos presentes em mapas antigos. Embora controversas, as versões reforçam o vínculo entre a cidade e a paisagem natural que a antecedeu.
Nos primeiros anos, a vida era árdua: doenças tropicais, falta de infraestrutura e isolamento eram desafios constantes. Aos poucos, comerciantes, hoteleiros e agricultores foram moldando o tecido urbano. A imigração europeia desempenhou papel decisivo — especialmente o ciclo italiano, responsável por abrir fazendas, impulsionar o café e, mais tarde, a diversificação agrícola. Famílias japonesas também chegaram a partir de 1915, contribuindo para a agricultura, o comércio e a vida cultural.
O município desenvolveu-se rapidamente. A energia elétrica chegou em 1919, e a criação do distrito de paz ocorreu ainda na década de 1910, abrindo caminho para a autonomia político-administrativa. Em 1922, foi instalada a Comarca de Araçatuba.
A partir da década de 1930, novos ciclos econômicos transformaram o perfil da cidade. O algodão ganhou força com a crise do café, atraindo grandes indústrias como a SANBRA e a IRFM. Em seguida, a expansão pecuária — impulsionada por famílias mineiras e goianas — consolidou Araçatuba como polo do agronegócio e, por muitos anos, “Capital do Boi Gordo”. A implantação do frigorífico T. Maia e o fortalecimento dos leilões reforçaram essa identidade.
Outros marcos, como a chegada do asfalto em 1939 — que projetou a cidade nacionalmente —, o crescimento da indústria, o desenvolvimento urbano e a realização da Expô Araçatuba, ampliaram a influência regional do município.
Da ferrovia ao agronegócio, da diversidade cultural à força migratória, Araçatuba trilhou um caminho singular, marcado por resiliência, transformações profundas e uma identidade construída a muitas mãos.
Araçatuba: da fundação ao poder municipal — 100 anos de transformação
Ao longo de mais de um século, Araçatuba se reinventou diversas vezes, acompanhando ciclos econômicos, avanços sociais, disputas políticas e movimentos de expansão urbana que moldaram sua identidade. Do surgimento às margens da antiga Noroeste, à consolidação como polo regional, a cidade percorreu um caminho marcado por pioneirismo, modernização e lideranças que deixaram sua marca na administração pública.
A construção da cidade começou com o avanço ferroviário no início do século XX, atraindo colonos e comerciantes e formando os primeiros núcleos de povoamento. A economia, inicialmente estruturada pela agropecuária e pelo fluxo ferroviário, deu lugar, décadas depois, ao desenvolvimento industrial, ao fortalecimento do comércio e, mais recentemente, a uma crescente vocação para serviços, tecnologia e inovação.
Nesse processo, a evolução política também desempenhou papel essencial. Araçatuba passou dos antigos intendentes nomeados pelo Estado ao pleno exercício do voto direto, consolidando uma estrutura administrativa própria. A seguir, um panorama dessa trajetória.
Os primeiros intendentes (1922–1930): a base da administração municipal
Araçatuba iniciou sua organização formal com intendentes nomeados. Entre os pioneiros estavam Joaquim Pompeu de Toledo, primeiro administrador municipal em 1922, além de Hermílio de Magalhães Pinto, Gaspar Prado de Souza, José Gomes do Amaral, Claudemiro Walsh Costa e Álvaro Cerqueira Leite.
Esse período foi marcado pela implantação dos primeiros serviços urbanos, organização territorial e fortalecimento da economia local.
Prefeitos nomeados e a transição política (1930–1947)
Com as mudanças trazidas pela Revolução de 1930, Araçatuba passou a ter prefeitos indicados pelo Estado. Entre eles, Edgar Jardim Bastos, João Arruda Brasil, Rogaciano Nolasco, Joaquim Camargo Ferraz, Aureliano Valadão Furquim, Célio Cintra, José Coelho Júnior e Renato Prado.
A fase consolidou a máquina pública e preparou o município para as eleições diretas.
O voto direto e o fortalecimento da democracia local (1948–1963)
Com a redemocratização, Araçatuba voltou a eleger seus prefeitos. Joaquim Geraldo Corrêa inaugurou o ciclo, alternando gestões com Aureliano Valadão Furquim, João Batista Botelho e administrações interinas de vices e substitutos. Foi um período de expansão urbana e ampliação de serviços.
Ditadura militar e reorganização administrativa (1964–1982)
Durante a vigência da ARENA, Araçatuba foi governada por Sylvio José Venturolli, João Batista Botelho, Waldir Felizola de Moraes, Oscar Cotrim e Antônio Saraiva, que assumiu após renúncia do titular.
O município viveu reorganização institucional, expansão viária e fortalecimento dos bairros.
Redemocratização e pluralidade partidária (1983–2000)
Com o retorno pleno da democracia, Araçatuba experimentou alternância partidária. Sidney Cinti, Valter Tinti, Germínia Dolce Venturolli — primeira mulher prefeita — e Domingos Martin Andorfato conduziram gestões marcadas por expansão comercial e crescimento econômico.
Germínia retornou ao cargo entre 1997 e 2000, reforçando a presença feminina na política local.
O novo século: modernização, infraestrutura e grandes obras (2001–2024)
O século XXI intensificou a modernização urbana. Jorge Maluly Netto governou por dois mandatos, com forte investimento em infraestrutura.
Depois, Cido Sério administrou a cidade em dois períodos, enfrentando desafios e passando por afastamento temporário em 2016, quando o vice Carlos Hernandes assumiu.
Dilador Borges foi eleito em 2017 e permaneceu até 2024, conduzindo reformas estruturais, reorganização administrativa e investimentos na saúde.
Lucas Zanatta (PL) e os caminhos para 2025 em diante
Desde 1º de janeiro de 2025, Araçatuba vive uma nova etapa sob a gestão do prefeito Lucas Zanatta (PL). A administração iniciou com foco em modernização dos serviços públicos, digitalização de processos, melhorias na infraestrutura urbana, incentivo ao empreendedorismo e busca por soluções mais eficientes para a rotina da cidade.
O período marca uma fase de transição para modelos de gestão apresentados como mais ágeis, com projetos voltados à tecnologia, mobilidade e fortalecimento econômico.
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