Destino define detalhes! A Igreja sempre considerou o tempo da Quaresma como uma espiritual peregrinação. No conceito popular, a Quaresma representa tempo de penitências e sacrifícios, praticados, na maioria dos casos, de maneira individual e privada. Sem desmerecer a piedade popular, lamenta-se a quase total exclusão da dimensão coletiva da peregrinação quaresmal. Privatizada, a prática religiosa fica empobrecida, sem ressonância, consequentemente!
Aplicada atenção aos textos litúrgicos revela a explícita dimensão eclesial desse período quaresmal. É a Igreja que se prepara para celebrar os mistérios pascais. É na condição de integrante na comunidade de batizados que o fiel se entrega a renovar e a reafirmar sua identidade de batizado.
Os exercícios tradicionais ligados ao tempo da Quaresma – oração, jejum, prática da caridade – são vividos plenamente e se revestem de ressonância impactante quando praticados na dimensão eclesial. Liturgias oficiais, práticas piedosas coletivas, retiros, devem ganhar preferência sobre a mística privada. Instruídos pela Palavra de Deus, tanto o batizado como a comunidade buscam encontrar as raízes de suas infidelidades diante dos compromissos batismais.
É de reconhecer que muitas comunidades não peregrinam como comunidades. São mais aglomerados que povo reunido. As penitências individuais, por mais louváveis e recomendáveis, geram impactos circunscritos. Emerge a ressonância de penitências coletivas, gestos disciplinares assumidos pelas comunidades, capazes de gerar esperança na vida da coletividade, a sinalizar o despertar de um convívio social diferente, mais humano, mais inclusivo.
Almeja-se contemplar obras de misericórdia assumidas por comunidades de fiéis. Neste sentido, a realização da Campanha da Fraternidade no Brasil oferece a cada ano campo, espaço e propósito para uma ação caridosa coletiva, civicamente transformadora. Saudável e exemplar é a conduta do batizado conscientizado. Impactante e transformadora, revolucionária mesmo a atuação de uma comunidade engajada.
É a Igreja que se prepara para celebrar os mistérios pascais. A vitória de Cristo é vitória para toda humanidade. Pela sua morte e ressurreição, o Senhor Jesus decretou a morte do ódio, a morte da ambição desmedida, a morte da intolerância, a morte da prepotência. A morte da morte, enfim!
A sinistra presença da violência, assumindo cada vez mais a dimensão de organização criminosa, as covardes e cruéis ameaças contra a vida, alimentadas e espalhadas criminosamente por carteis econômicos e por plataformas ideologizadas, demandam contraofensiva caridosa, comunitariamente coesa. É intenso o interesse para manter a religião privatizada.
Fragmentada, a religião fica inócua. Urge peregrinar junto! Em comunhão, em compasso coletivo, o ciclo litúrgico da Quaresma salta como tempo favorável para semear difusa esperança!
O padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba.
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