DIA DELAS

Mulheres: artistas e produtoras de cinema araçatubense

Por Maryla Buzati | da Redação
| Tempo de leitura: 7 min
Arquivo Pessoal
Imagens do trabalho de Camila, na Praça da Sé, para o filme 'Gesta do Gesto'
Imagens do trabalho de Camila, na Praça da Sé, para o filme 'Gesta do Gesto'

Em 8 de março é celebrado o Dia Internacional da Mulher, que tem suas origens nos movimentos feministas e trabalhistas do final do século 19. E levando em consideração que nas últimas semanas tem se falado muito sobre o cinema, o cinema nacional e o papel das mulheres nessa forma de arte, por causa da premiação do Oscar, a Folha da Região/Sampi entrevistou mulheres que são artistas e cineastas de Araçatuba para divulgar e enaltecer seus trabalhos, além de valorizar o cinema e a arte local.

Camila

Camila Vinhas Itavo, de Araçatuba, é fotógrafa, bailarina, cineasta e pesquisadora. Ela produziu o documentário curta-metragem O jornaleiro que preferiu o rádio, o documentário performático de longa-metragem Gesta do Gesto, o dançacine Eu Rio e a série audiovisual de dança Quanto mais contato melhor.

Gesta do Gesto

Gesta do Gesto foi um filme bastante reconhecido e que recebeu diversos prêmios. O longa traz a história dos avós de Camila, que viveram no interior. O avô era peão de boiadeiro e queria comprar um avião para a esposa. Além disso, é inspirado no cinema marginal e foi feito no formado de filme-ensaio e aborda as culturas latinas, uruguaias, indígenas e brasileiras. Cenas da produção performática de Camila na Praça da Sé, em São Paulo, também entraram no longa.

O filme recebeu diversos prêmios, como o Silk Road Filme Awards Cannes (2022): Melhor Diretora Estreante e Melhor Filme de Justiça Social; Vancouver Independent Film Festival (2022): Melhor Direção Feminina em Longa-Metragem; Switzerland International Film Festival (2022): Melhor Documentário; Participações em eventos como Pupila Film Festival (2024), Canoa Film Festival (2024) e Festival Internacional LAtinUy – Ópera Prima (2024).

A produção também foi traduzida para inglês, espanhol e kamayurá, além da interpretação em libras.

O filme teve apoio da Secretaria Municipal de Cultura de Araçatuba e da Lei Aldir Blanc e é reconhecido por sua abordagem sensível e impactante. Recentemente, a Secretaria entrou em contato para articular uma exibição do filme nos cinemas da cidade.

Mesclando as artes

Camila costuma usar seus outros talentos, como a fotografia e a dança, na produção de seus filmes, como O jornaleiro que que preferiu o rádio, que é todo feito de fotos tiradas por ela mesma.

“Outra coisa que considero importante dizer, é que o filme (Gesta do Gesto) é uma saga do gesto e tem muito a ver com uma pesquisa. E de fato, o filme acaba sendo muito autoral, porque eu fiz praticamente tudo”.

A artista, que já é doutoranda, já fez uma pesquisa de pós-graduação chamada História e Narrativas Audiovisuais, em que ela estudou a relação entre o gesto, a dança, o movimento, a fotografia e o audiovisual. “Eu acredito que o corpo é um ser da natureza. Esse é o lugar da condição humana. E na contemporaneidade vivemos essa ambiguidade entre corpo e mente. Então era uma pesquisa, mas também uma saga minha sobre o meu próprio gesto enquanto artista”.

Ela também afirma que, além de saga, é uma cantiga de gestos, porque são feitos heroicos vivos por pessoas anônimas que fazem coisas maravilhosas. “É sobre isso. Sobre ser feliz na sua singularidade”.

Paula

Paula Liberati é atriz, produtora de cinema, preparadora de elenco, diretora de elenco, professora de interpretação para cinema, performer e eutonista. Ela é natural de São Paulo, mas hoje em dia se divide entre a capital e Araçatuba.

Paula participou na preparação de elenco de dois curta-metragens em Araçatuba, o Fogo no Canavial e o Gorro Vermelho na Lua Cheia, ambos lançados em 2024 e apoiados pela Lei Paulo Gustavo.

Com destaque para Fogo no Canavial – Um Faroeste na Noroeste, que foi totalmente filmado e produzido em Araçatuba. O filme apresenta um homem desempregado no limite da sanidade que, após ser expulso de casa pela Justiça, embarca em uma jornada até a casa do tio na zona rural, descobrindo que o local, seu único elo de infância, está prestes a ser derrubado para o plantio de cana. Sem nada a perder e vestindo um colar que transmite certos poderes, ele decide confrontar seu amigo de infância, um rico fazendeiro. Uma história de transformação pessoal e poder ancestral.

Mulheres no cinema

Camila acredita que, apesar das mulheres já terem mais espaço na área do cinema, ainda existe a necessidade de aumentar essa quantidade. Até ela mesma já fez um projeto voltado para esse movimento. Para Camila, ter mulheres na equipe também é mais vantajoso e produtivo. “Tecnicamente, as mulheres conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo e elas fazem muito bem”.

Já Paula diz que já está acontecendo um forte movimento de mulheres no cinema atualmente, desde a atuação até a produção executiva. Mas ela confessa que os homens ainda predominam nas áreas mais técnicas, como a direção de fotografia.

“Mesmo já tendo esse movimento grande, eu acho que a gente precisa, sim, continuar ocupando cada vez mais esses espaços e nos fortalecendo, e também contando histórias a partir do nosso ponto de vista, tanto no roteiro, que é onde tudo começa, quanto na direção. Mulheres na produção executiva, coordenando o financeiro, etc. A gente tem uma potência muito grande de transformação, então eu acho que o cinema só tem a ganhar com mais e mais mulheres”, relata a artista.

Ainda acrescenta que, para aumentar a quantidade de mulheres ocupando os cargos, a melhor forma é chamar mulheres para o trabalho e, não só isso, mas abrir espaço para ensino e treinamento para ela conseguir suprir tudo o que o mercado exige e precisa em cada função.

Cinema nacional

As nomeações de Ainda Estou Aqui em categorias do Oscar fez com que os brasileiros falassem mais sobre o cinema nacional e demonstrassem mais interesse nelas. Sobre isso, Paula acredita que é importante para o movimento, já que as produções batalham tanto para que os streamings abram cada vez mais espaço, tanto para o cinema, quanto para as séries.

“Outro fato é que sempre fomos muito americanizados, como diria Carmen Miranda. A gente consome muito o que vem de fora, essa 'síndrome de vira-lata', que eles chamam. E a gente precisa parar com isso, porque sempre tivemos direções maravilhosas no cinema brasileiro. E ter ganhado, finalmente, um Oscar (melhor filme internacional para Ainda estou aqui), é muito importante para a gente ver e aprender a se valorizar. E não só isso. O prêmio também nos possibilita o sonho. Isso que é muito bonito”, explica Paula.

Ela conta também que, ao consumir cinema nacional, as pessoas estão colaborando com a indústria do cinema, que é “poderosíssima e rentabilíssima”, pois, segundo ela, é mais rentável que a indústria automobilística no Brasil, porque gera muitos empregos. Então, quando esses filmes são consumidos, fomenta cada vez mais essa indústria.

Já Camila ressaltou o que o diretor do filme e os atores vêm falando bastante, é a valorização do cinema independente. “Esse filme (Ainda estou aqui) mesmo levou sete anos para ser feito, porque também envolveu toda uma pesquisa”. 

Um segundo ponto que ela aborda é sobre a história que o filme apresenta, que se passa no período de Ditadura Militar no Brasil. Segundo a fotógrafa, muitas pessoas sofreram naquela época e “nós somos uma sociedade que não fez terapia para tratar esse trauma”, e a comoção desse filme fez com que as pessoas debatessem esse trauma.

E com isso, ela aplaude quem produziu essa obra, que trouxe a história de uma mulher que não parou de lutar, apesar das suas perdas. “Essa comemoração toda é muito importante para o nosso desenvolvimento, tanto do cinema, quanto das pessoas individualmente”.

Cinema local

De acordo com Paula, o incentivo da Lei Paulo Gustavo tornou mais acessível fazer cinema regional, porque fazer filmes é muito caro, justamente porque engloba muitos trabalhos, uma equipe muito grande. Por isso, quando é feito, é importante a população prestigiar.

“Ano passado eu participei de duas produções em Araçatuba, mas ao todo foram 16 produções na cidade e isso é um número maravilhoso, pois, apesar de já ter gente trabalhando na área, não tinha essa cultura de produzir tanto filme assim. No fim, foi realizado até um festival só com filmes totalmente produzidos na região.”

Após essa declaração, Paula reforçou a importância da própria população prestigiar os filmes regionais, compartilhar na internet e, que todos podem ser patrocinadores, até pessoas físicas, desde que esteja numa lei de incentivo com seus 3% do seu Imposto de Renda. “É bom estar informado, e também não reproduzir as besteiras que dizem por aí, que o artista 'mama' na Lei Rouanet ou nas leis de incentivo. Isso também ajudaria muito”.

Fale com o Folha da Região!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários