OPINIÃO

Servir e retornar: o que devemos ensinar às crianças

Por Ayne Salviano | Especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 3 min

Um estudo de Harvard mostra que a humanidade está indo na contramão do desenvolvimento humano. Estamos involuindo e se não mudarmos agora nossa relação entre adultos e crianças, colocaremos nossos filhos e netos em risco. Vou contextualizar: a Universidade de Harvard é uma das mais prestigiadas do mundo. Fundada em 1636, é a mais antiga universidade dos EUA. Seu nome é sempre citado quando o assunto é excelência acadêmica e pesquisa inovadora, especialmente nas áreas de negócios, direito, medicina e ciências.

Foi nesse espaço que pesquisadores do Center of The Developing Child adaptaram o conceito de "Servir e Retornar" (“Give and Take", em inglês), popularizado pelo professor Adam Grant, da Universidade da Pensilvânia, para auxiliar no desenvolvimento saudável do cérebro das crianças.

Do que trata o conceito “Servir e Retornar” de Adam Grant? Em resumo, é uma abordagem para o sucesso que se baseia na ideia de que, ao ajudar os outros e contribuir para o bem comum, as pessoas podem criar um ciclo de reciprocidade que gera benefícios para todos os envolvidos.

E como isso pode auxiliar no desenvolvimento infantil? De acordo com os estudiosos de Harvard, o “Servir e Retornar” usado como uma ferramenta de interação entre a criança e o seu cuidador promove o desenvolvimento saudável do cérebro infantil.

Mas essa dinâmica só terá uma importância significativa se as interações forem positivas e responsivas desde os primeiros anos de vida. Dessa forma, haverá um desenvolvimento saudável e completo do cérebro infantil. O oposto também é verdadeiro. Sem as interações, as crianças não se desenvolverão adequadamente.

Segundo os pesquisadores, quando há um processo de troca responsiva entre a criança e um adulto, quando a criança faz algo (“serve”) como balbuciar, sorrir, apontar ou chorar e o adulto responde (“retorna”) com atenção, palavras, gestos ou carinho, de maneira sensível, reconhecendo o comportamento da criança e reagindo com palavras ou ações, a repetição desse ciclo, em inúmeras vezes, fortalece as conexões cerebrais.

E por que essa conexão é essencial? Para o desenvolvimento do cérebro das crianças, porque essa troca fortalece conexões neurais e estimula a formação de sinapses essenciais para habilidades cognitivas, emocionais e sociais. Quando um adulto dá atenção total à criança que está sob a sua responsabilidade, o “servir e retornar” ajuda também para o desenvolvimento da linguagem, da comunicação. As respostas adequadas auxiliam as crianças a entenderem o significado das palavras.

Outro ponto é a questão dos aspectos emocionais. A interação adulto-criança constrói resiliência emocional. O retorno afetivo ensina os pequenos a lidarem com suas próprias emoções e a sentirem-se seguros e compreendidos. Sem retorno afetivo, tornam-se inseguros e sentem-se incompreendidos. Assim, a falta de interações de “servir e retornar” pode afetar negativamente o desenvolvimento cerebral levando a dificuldades de aprendizado e relacionamentos.

Pausa para a reflexão. O que observamos na sociedade atualmente? Bebês em suas cadeirinhas de carro de olhos fixos na tela que está à sua frente ou em suas mãos. Crianças acomodadas nas mesas de refeição já conectadas às telas para que permaneçam “distraídos” e comam ou não incomodem. Em casa, desde muito tempo, a babá é a tela, primeiro na televisão e depois no computador, no IPad ou no próprio celular. E a tela continua dominando as crianças, os jovens e muitos adultos até na hora de dormir, já deitados nas suas camas. Não há diálogo.

A interação entre adultos e crianças hoje é quase um ato de resistência realizado por pais conscientes de que quanto mais tarde as telas chegarem aos filhos, melhor para eles. O magnata Bill Gates, da Microsoft, deu o exemplo quando disse que seus filhos teriam computadores sim, mas só depois que lessem os livros. Sábio.

Como professores, presenciamos diariamente os males causados pela falta de interação entre pais e filhos. Crianças e jovens da geração “tanto faz”, incapazes de verbalizarem suas dúvidas ou sentimentos. Sofridos, ansiosos, raivosos, apáticos, medicados. A atividade passiva diante das telas se repete na vida. É preciso romper esse ciclo vicioso e praticar o “Servir e Retornar”.   

Ayne Regina Gonçalves Salviano é graduada em jornalismo e marketing digital. Especialista em metodologia didática. Mestre em comunicação e semiótica, com MBA internacional com gestão educacional.

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