Crônica

Por quê, humanos?!

20/05/2024 | Tempo de leitura: 3 min

Há pouco, a fabulosa Amazônia nossa, talvez a maior fábrica de água deste continente, se estarreceu com o que lhe parecia impossível de vir a ser: seus imensos rios morriam de sede. O quadro catastrófico por certo poriaPortinari insone de dor, e com infindas e obsessivas pinceladas a edificar mais um quadro de retrato artístico dos horrores que o homem brasileiro produz contra os outros, seus semelhantes, e contra si mesmo. 

?Era como se o Nordeste, cuja sina é eternamente esturricar-se, de pura inveja de seu vizinho de cima, detentor daquela imensidão de água, mancomunara-se, em trama de pura inveja e despeito, com o sol que o devassa.Então o sol pôs-se a despender toda aquela fúria de seu fogo calcinante, com toda a ira possível, sobre aquele mundo de puro verde e água. 

E o que fora rio se fizera lama, barro e logo terra arrasada como se Nordeste se tornara. Embarcações de toda ordem subjugadas por toda aquela imensidão então desertificada. O que fora toneladas de espécies de peixes se fizera pó de areia e terra. Centenas e milhares de gente empobrecida percebendo ainda mais destituição e pobreza.

Quede os pássaros, os répteis aquáticos? Quede água aos animais das selvas? Quede eles? Quede vós, homens responsáveis pelo zelo daquilo que tomaste de empréstimo, sem juros, sem correção monetária, sem comissões intermediárias e sem tempo determinado, mas sim de palavra pactuada na cumplicidade nata? Fiei-vostudo, crente de que, filhos de juízo pensante, em gratidão à graça de acolhimento, amparo e proteção seríeis para sempre firmes preservadores de tudo, do todo, cuja sociabilidade das partes é imprescindível às vidas – vós, uma delas, a privilegiada – que nele residem

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??Mas não. Ah! homens, homens..., por que deixastes tanto vos seduzires assim pelos males deixados escapar por Pandora? Ponho minha mão no fogo com que vos presenteou Prometeu (fogo com que também tanta catástrofe tendes provocado), para afirmar convicta e seguramente que o barro de que fostes modelados ou amebas emergidas era da mais pura e límpida argila.

 

??A devassa destruição que vossas Guerras infundas perpetuam são, sim, consequência absoluta de vossa ambição insana. Agora, mais uma, ali no Rio Grande do Sul do Brasil, um quase dilúvio querendo engoli-lo. Padeço com os homens de boa vontade e grandeza da dor que os assola. Todavia, tanto quanto a vós, a todos os outros entes de meu seio foi consignada a independência e responsabilidade de seus próprios atos. Portanto, nada me cabe fazer. O instinto de reação é também um dos caracteres deles e não somente de vós. Filhos zelosos, valentes e guerreiros do meio ambiente há muito vêm imprimindo sua ira de revide cujas medidas e ações têm sido semelhantes como esta outra tragédia gaúcha.

??Agredido, extorquido, represado, o Guaíba e seus agregados receberam auxílio-socorro de tempestuosas chuvas. Agigantados vieram turbilhonados engolindo e desmoronando tudo, arrastando, sufocando, afogando gente e animais. Uma tragédia, se não previamente anunciada, constantemente prevista.

??Impotente, atarantada, limito-me, pois, a assistir às causas dessas insanas e assassinas ambições vossas. E minha dor faz-se sobretudo pela grande maioria dos atingidos, vossos irmãos e demais viventes completamente isentos e apartados dessas vossas insanas e assassinas ambições.

??Residências tragadas, centenas de pessoas mortas, feridas, destituídas de tudo a duras penas construído, adquirido com muito ainda a pagar. Gente e animais rodando sem paradeiro pelas correntezas da imensidão de transbordamento do rio em fúria. Centenas ao deus-dará somente com a roupa vestida. Eis os destroços. Terríveis, ainda que diferentes dos construídos pelas guerrasperpetradas. Estas ainda agora dada ao vivo e em cores, arrasando croatas e palestinos.

??Mas... ah!... quem sabe!? De todos os elementos que caíram sobre os homens da caixa de Pandora nada escapara senão um, a esperança. A ela, e somente a ela, parece ter sido conferido o dom da perseverança e da resiliência. Ela, talvez, o milagre, a magia da dificílima, todavia não impossível, depuração deste animal humano.

??Ei-la na massiva mobilização de todo tipo de desprendimento completamente destituído de quaisquer benefícios próprios, senão o de se sentir em estado de graça por servir-se pela integridade da vida do outro, seu igual e semelhante. 

??Por certo, não obstante tanta perversidade em forma de gente, o homem talvez seja ainda capaz de não ser uma causa perdida, como já diagnosticaram alguns sábios. Não o será, certamente, enquanto houver a esperança.

 

 

 Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

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