Opinião

Negacionismo climático mata

20/05/2024 | Tempo de leitura: 3 min

 

 

 

A tragédia que está acontecendo no Rio Grande do Sul pode ocorrer em outras partes do Brasil? Quais são os estados que estão mais propensos a sofrer as consequências das mudanças climáticas? Na minha cidade, existe risco de desmoronamentos ou inundações que matem pessoas e animais, e danifiquem casas, ruas, prédios e outras construções? 

Essas são algumas perguntas que todos nós, brasileiros, deveríamos estar fazendo agora aos nossos prefeitos, vereadores, deputados estaduais e federais, senadores e governadores. Não para provocar alarde, alarme, confusão. Mas, ao contrário, para exigir desses gestores as políticas públicas necessárias para a prevenção desses desastres.

Já existem pesquisas e estudos realizados por especialistas desde 2014 que apontam a urgência de preparar as cidades brasileiras para as consequências do aquecimento global e as mudanças climáticas. Um exemplo é o projeto “Brasil 2040: cenários e alternativas de adaptação à mudança do clima” encomendado em 2014 pela gestão da presidente Dilma Rousseff (PT).

Composto por vários relatórios de respeitados órgãos de pesquisa do país, o documento apresentou resultados dramáticos, como elevação do nível do mar, mortes por onda de calor, colapso de hidrelétricas, falta d’água no Sudeste, piora das secas no Nordeste e o aumento das chuvas no Sul. As consequências do novo cenário foram analisadas nas áreas de infraestrutura, agricultura e energia.  

O objetivo era propor medidas de adaptação climática para minimizar os impactos negativos das mudanças já em curso e, portanto, inevitáveis. Só que o estudo, que custou aproximadamente 3,5 milhões de reais pagos com o nosso dinheiro de contribuintes, foi ignorado por todos os gestores públicos nos últimos 10 anos. 

Especificamente no Rio Grande do Sul, governadores, senadores, deputados federais e estaduais, prefeitos e vereadores nada fizeram mesmo após uma manifestação enfática feita por Marcelo Dutra da Silva, professor de Ecologia na Universidade Federal do Rio Grande (FURG), na Câmara Municipal de Pelotas, em junho de 2022.

Na ocasião, o pesquisador apresentou dados de seus estudos sobre mudanças climáticas no Brasil, em especial na região Sul, e alertou o Legislativo e o Executivo para a possibilidade de as cidades enfrentarem inundações em áreas que nunca haviam sido atingidas anteriormente. O professor afirmou que Pelotas, por exemplo, não tinha planejamento de área de risco, planejamento de inundação, não tinha planejamento de absolutamente nada que levasse em consideração as mudanças dos eventos climáticos, particularmente sobre o comportamento das chuvas, que vinha mudando desde 2013.

Em um determinado momento da sua fala diante das autoridades locais, Marcelo Dutra perguntou: “Vamos apagar o incêndio quando ele ocorrer?”. E ainda alertou: “Nós vamos ver as águas chegarem”. O vídeo viralizou nas redes sociais nos últimos dias e é fácil de ser encontrado na internet. Importante ressaltar que Canelas é um dos municípios mais afetados com as atuais inundações.

Segundo informações, aproximadamente 80% das 497 cidades gaúchas foram atingidas pelas enchentes de maio. Dados atualizados a todo momento apontam que cerca de 150 pessoas morreram, há mais de 130 desaparecidos e um número aproximado de 900 feridos. São mais de 600 mil pessoas fora de suas casas sendo que perto de 80 mil delas estão em abrigos improvisados. Apesar de todos os esforços do governo federal, de vários governos estaduais e de toda a população brasileira, o Rio Grande do Sul deve levar anos para se recuperar dessas enchentes de maio.

O que nos obriga a voltar às questões expostas no início deste texto. Nossa cidade tem planejamento para lidar com questões do meio ambiente? Esse questionamento é extremamente relevante porque agora temos certeza que o negacionismo climático mata.

Por fim, as pessoas que você pretende eleger para a prefeitura e a Câmara de Vereadores esse ano têm conhecimentos e competência para tratar desse assunto?  Qual a formação delas? O que elas estudaram? Qual experiência profissional carregam que pode contribuir para a gestão pública nesse e em outros setores? Lembre-se: seu voto é muito importante. Não desperdice essa chance.

 

Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista, mestre em Comunicação e Semiótica, especialista em Didática do Ensino Superior com MBA em Gestão.

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