Opinião

Caramelo

20/05/2024 | Tempo de leitura: 2 min

 

A história é feita de dor e maldade! A sentença de Hannah Arendt, motivada pelas atrocidades praticadas na segunda guerra mundial, aplica-se, sem retoque, para a atual calamidade que aflige a população gaúcha. Imagens, entrevistas e desabafos registram a dor de centenas de cidadãos que  perderam, literalmente, tudo neste sinistro tsunami urbano. Aglomerados em improvisados abrigos, totalmente dependentes da solidariedade alheia, os desabrigados experimentam uma vergonhosa humilhação a mais, a total perda da privacidade. Compreensível o abatimento e a desolação! Custa imaginar a insensibilidade de saqueadores! Custa imaginar o despudor e o atrevimento de quem se aproveita da exígua privacidade para molestar sexualmente. Custa o diabólico deleite de quem semeia e divulga notícias falsas e alarmantes com a intenção de provocar pânico em mentes incautas e crédulas! Que dizer, então, do infeliz pregador que brada ser castigo de Deus a invasão das águas.

Mentes cínicas se deleitam em provocar pânico! Infinitamente mais numerosas, felizmente, são as almas genuinamente humanas que reagem com sentimentos de larga generosidade e compassiva solidariedade diante da aflição do semelhante. O que se está contemplando nessa massiva e comovente corrente de ajuda e socorro atesta enfaticamente que os sentimentos de bondade e caridade persistem vibrantes no coração humano. A solidariedade une pessoas! Inesgotável é a reserva de bondade na alma humana! Nobres propósitos unem pessoas e acenam para uma realidade profundamente almejada: é possível, sim, a humanidade viver em harmonia! É possível, sim, a humanidade domar o egocentrismo, superar a indiferença e cultivar a cultura da aproximação! Por que esperar acontecer desgraças e tragédias?

Verdade outra que emerge, com indisfarçável impacto e urgência, apela para a responsabilidade coletiva para com o meio ambiente. Verdade, as chuvas foram intensas e intermitentes, mas as toneladas de lixo boiando em ruas alagadas denunciam deplorável irresponsabilidade, imperdoável descaso. Lamenta-se profundamente que o cuidado com o meio-ambiente não consta das pautas prioritárias nem de governos, nem de empresas e nem de cidadãos. Há muito discurso, mas pouco empenho. Há muito holofote, mas escassa mobilização. Remediar é necessário. Muito mais sábio e econômico saber prevenir! Se não for respeitada e bem cuidada, a casa comum desaba, arrastando gente, arrasando bens!

O equino Caramelo, ilhado a espera de socorro, no telhado de uma residência, acabou se transformando em ícone dessa desesperadora desolação. Que sirva o formidável, e louvável, empenho para resgatar o animal de inspiração e motivação: guiada por um transcendente ideal, a humanidade, consegue, sim, articular-se harmoniosamente, superar as diferenças, consegue, sim, capacitar-se para viver irmanada na alegria e na tristeza.

 

Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

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