CRÔNICA

Lá se foram 40 anos

'Não fui pouco, mas não fui um Elísio... Adeus.' Leia a crônica de Tito Damazo.

Por Tito Damazo | 05/05/2024 | Tempo de leitura: 3 min
especial para a Folha da Região

- Cara! Você não muda?!

- Você deu de tingir o cabelo, por quê? E Elvina... descasaram?

- E o seu joelho, parou de vez com a bola?

- Pra mim, sua magrém decorria da pobreza profunda da infância. Mas, depois que se livrasse dela, não persistiria.

- Você conseguiu acabar de ler Proust, encerrou, enfim, a busca do tempo perdido?

- Tinha tanto apego por aquele incisivo de ouro, afirmava te ter custado anos de trabalho. Cadê, teve que penhorá-lo?

- Soube do Douglas, né, o nosso soberbo Alain Delon?... Não?... Cara, os enciumados ventos do amor acertaram nele um petardo: um aneurisma entornou toda a boquinha sedutora e apagou os tais irresistíveis olhos azuis.

- Eu não tenho nada com isso, até esqueci dessa tua condição, mas não pensa em deixar essa vida cigana de uma vez por todas? Hora dessas, as feiticeirasmacbethianas da noite te pegam num cochilo e aplicam um daqueles torpedos disparados no Douglas.

- Tenho uma surpresa pra você. Lá um dia, me emprestou um LP com músicas de trilhas sonoras de filmes nacionais de sucesso. Aqui está. Intacto, conservadinho. Revi, na TV, certa vez, o filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, com trilha sonora do Sérgio Ricardo, cantada por ele mesmo: “Se entrega Corisco!...” “Eu não me entrego, não... Não sou passarinho pra viver lá na prisão...”. Daí me lembrei, puts!, que estava com o seu disco e que você gostava muito dele, principalmente, por causa desta trilha do Sérgio. Corri aos vinis encaixotados. Achei-o, aliviado! Décadas depois... devolvido inteirinho.

- Bons anos atrás, nos surpreendeu na porta de casa, o Elísio. Surpresa grande mesmo. Sabe o quanto o cara era ranzinza, seletivo... Antes de tudo me passou uma descompostura por ignorá-lo aquele tempo todo. Há anos, já havia me visitado. Desculpei-me como pude. Esboçou aquele risinho irônico que bem se conhecia. Pendurou o diploma, arrancou uma aposentadoria proporcional e abriu uma empresa de acessórios gerais para automóvel. Botou os três filhos responsáveis cada qual por alguns setores. Ele ficou no gerenciamento. Disse que o negócio ia muito bem...

- Ah!... o Elísio. Ele é uns anos mais velho que a gente, né?... Foi seminarista... Salvava a gente naquelas provas horríveis de latim... Eu sempre tive certeza que o professor Hermógenes perseguia silenciosamente com aqueles olhinhos miúdos mas sagaz de homem enorme a cola distribuída pelo Elísio rolando solta classe afora. Devia ter consciência que aquela língua morta não podia implicar reprovações que iriam atrapalhar o seguimento da vida da grande maioria daqueles estudantes de período noturno. É... o Elísio era muito ligado a você.

- Acho que ele me via um amigo que sabia compreender aquela casmurrice dele e, sem lhe pedir explicações, tocar em frente. Esta última vez, me cobrou mostrar-lhe se mantinha os livros de dois escritores que me sabia caros. Queria ler a dedicatória que fizera. Tranquilizei-o: pus nas mãos dele o “Grande sertão: veredas” e “José & Outros” de Drummond, uma rara edição da José Olympio.Dedicatórias intactas. E de quebra decidi antecipar-lhe uma surpresa que guardava para, no aniversário dele, enviar-lhe por e-mail. Um poema motivado por essa antiga convivência.

- Ô lá, lá! O cara, do jeito que costumava ser, deve ter ficado meio baratinado.

- É... ficou mesmo.

- Pô!... Já não sendo mais segredo, podia me mostrar.

- (....) Aí está. Leio em voz alta pra ouvirmos: “Tico & Elísio”: A profunda lacuna / que nos impôs o silêncio / não impôs, porém, a mim / para contigo / o apagamento do vazio. // Tampouco a ânsia / da presença pedestre / prazenteira / mas que pouco acresce. // Trago intacto / e irremovível / o que fora, / não o ora sendo / o que se não / saberia ser: / a condição / surda, muda; // o que se não / saberia sermos / mais que esses / surdos / mudos. // Houvemos, já então / taciturnos. / (Eu) Uma pedra bruta / tateando a medo / o áspero solo / o estrangeiro ermo / promessa de futuro. // O outro, eras. / Jazida túmida / comedida em / teu autoexílio, / se determinando / sem alardes / sem avisos / porém se autodesignando: / um meu Virgílio.

- Cara!... E ele?

- Mudo. Em minutos. Logo, estampou um sorriso, muito diferente do irônico. Depois, me puxou para um demorado abraço. E... dobrando pausadamente o poema, o pôs no bolso e perguntou se já se podia tomar uma cerveja.

- É... surpresas dessas quase sempre desequilibram. Uns mais, outros menos. Bem... Já nos demos à cerveja, ao bom almoço e muita conversa restauradora. Não vou nem convidar, nem esperar uma retribuição. Muito menos um poema. Não fui pouco, mas não fui um Elísio... Adeus.

Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

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