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“Elize Matsunaga: era uma vez um crime”

Por Redação |
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Crédito da foto: Divulgação
Crédito da foto: Divulgação

Série documental de três episódios, produzida pela Netflix, mostra a primeira e única entrevista de Elize Matsunaga após a condenação por matar o marido, o empresário Marcos Matsunaga; internautas dividem opinião sobre a produção

Bryan Belati

Crimes são cometidos todos os dias, e a maioria deles vêm a público por meio da cobertura da imprensa em conjunto com os órgãos de segurança pública.

No entanto, alguns deles chocam não só o Brasil, mas o mundo todo. O caso Elize Matsunaga, de 2012, é um desses crimes. Conhecido também como Caso Yoki, trata-se da condenação da ex-mulher do empresário Marcos Matsunaga, ex-diretor do grupo alimentício Yoki, por esquartejar o corpo do marido.

A Netflix lançou na última semana o documentário “Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime”, que apresenta o caso, as contradições, como o crime foi apurado e as investigações conduzidas pela polícia. Desde então, a produção figura no Top 10 Mundial de séries e filmes mais assistidos da plataforma.

No entanto, o longa-metragem dividiu opiniões. No Twitter, alguns internautas se posicionaram contra a narrativa, pois consideram que a criminosa foi colocada em uma posição de “vítima”, ao ser coagida pela equipe de investigação. “Tô assistindo o documentário da Elize e ela tava cercada num cenário completamente machista, me embrulha o estômago assistir certas falas”, disse um dos internautas.

ENTREVISTA A produção da série documental acompanhou a criminosa em duas “saidinhas” do presídio feminino de Itapevi, região metropolitana de São Paulo. Crédito da foto: Reprodução/Netflix

Porém, outra parte dos telespectadores pensa diferente. “Pessoal falando que o documentário da Netflix da Elize romantiza ela e eu não vi isso não. Se quisessem romantizar ela, tinham apenas passado a escrotidão do marido e tals. Eles em nenhum momento mostram só isso. Eles mostram tudo, inclusive como o caso foi mal conduzido”, publicou outra pessoa que assistiu à produção.

Mas qual foi o verdadeiro objetivo do documentário? Quais foram as pessoas entrevistadas? Como a produção teve acesso à Elize, sendo que a mesma está presa desde 2016?

ENREDO

A série documental tem quatro episódios de 50 minutos cada e revisita o passado de Elize, de sua infância em sua cidade natal, até o conturbado relacionamento com o empresário.

“Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime” traz também os detalhes que sucederam o fato, desde tentativas de acobertamento do crime, passando pela confissão, prisão, julgamento em 2016 e também saídas temporárias, que foram acompanhadas pela equipe de filmagem.

A série documental é da Boutique Filmes para a Netflix, com direção de Eliza Capai, e conta com a primeira entrevista de Elize, que foi condenada a 19 anos, 11 meses e um dia de prisão.

O documentário mistura os depoimentos da condenada com os relatos dos advogados de ambas as partes, ou seja, da família da vítima e de Elize. Também fazem parte do enredo depoimentos de familiares da mandante do crime, além de imagens reproduzidas dos momentos finais de Marcos e também do passado da criminosa.

A obra possui algo que poucas produções que recontam crimes reais possuem: uma entrevista exclusiva com a personagem central, neste caso, Elize Matsunaga, viúva de Marcos Matsunaga, empresário até então presidente do grupo alimentício Yoki. A criminosa confessa o assassinato do marido nos depoimentos.

A minissérie documental é dirigida por Eliza Capai, a qual desenvolveu um trabalho em que as palavras de Elize são o fio condutor de uma narrativa que traz não apenas o lado da história dela, mas a sua própria história.

Assim, o documentário conta não apresenta o caso de assassinato com detalhes, mas também a história de quem cometeu o crime, e todos as situações as quais levaram Elize a matar o marido.

Na história, Elize é uma menina pobre, vítima de abuso, que não via a hora de sair de Chopinzinho, cidade do interior do estado do Paraná, onde nasceu. É a partir da história criminosa que o telespectador vê de relance a vida de Elize e Marcos antes do crime que ganhou os noticiários no Brasil.

O rótulo de “vida de princesa” que a produção afirma que Elize possuía é questionado enquanto os episódios discorrem sobre o fato. Pois ela relata as infidelidades do marido, as brigas intensas do casal e uma convivência marcada por peculiaridades que são impossíveis de dissociar da tragédia.

Marcos e Elize compartilhavam um interesse por armas e por caça. Elize relata que aprendeu a atirar com o marido, e afirma que o casal desossava os animais que matavam. A fala dela é importante para que o telespectador entenda o que passa na cabeça da criminosa.

CONTRADIÇÃO Produção mostra história de Elize além do crime cometido. Crédito da foto: Reprodução/Netflix

Em contradição, amigos, colegas e advogados falam de Marcos e da perspectiva que tinham sobre o relacionamento do casal. No entanto, o objetivo da produção não é inocentar ninguém, e sim compreender as motivações por trás do crime bárbaro cometido por Elize, que chocou todo o país.

Ao ser questionada pela jornalista investigativa Thaís Nunes, ela não tem respostas claras para o que vem. O trabalho da repórter e dos diretores foi apresentar ao público um exercício de como a imprensa tratou o caso ao longo dos anos, sem nenhum sensacionalista, e essa visão apresenta um novo olhar sobre Elize, humanizado.

Mesmo as pessoas já conhecendo o final da história, a narrativa cria uma tensão em quem está assistindo, ponto positivo para a direção do longa, visto que não há nenhum elemento surpresa.

O documentário presta o serviço de registro histórico, ao compilar todas as informações divulgadas pela imprensa nacional em um só produto, além de oferecer ao telespectador a visão exclusiva de quem quer conhecer o caso a fundo: a fala da peça chave da investigação, Elize.

CASO

Elize e Marcos se conheceram em 2004, por meio de um site de relacionamentos. A mulher era prostituta e Marcos era casado na época, mas manteve um relacionamento extraconjugal com Elize por três anos. Em 2009, ele se divorciou da então esposa e se casou com a amante de longa data.

Em 2010, Elize passou a desconfiar que estava sendo traída, porém ficou grávida e deixou as desconfianças de lado. Nos anos seguintes, o casal voltou a brigar frequentemente conforme a desconfiança de Elize aumentava.

Preocupada, a mulher viajou para o Paraná e contratou um detetive particular para espionar o marido. Rapidamente, ela descobriu que Marcos se encontrou com a amante em São Paulo. Ao descobrir sobre o encontro, ela voltou para casa em 19 de maio de 2012, no dia em que o crime chocante ocorreria.

De volta a São Paulo, Elize, a filha do casal — que tinha 1 ano na época — e a babá da criança, foram buscadas no aeroporto. A profissional foi dispensada, e o casal teve uma discussão, com a mulher questionando o marido sobre a traição.

Enfurecido, o empresário agrediu Elize com um tapa no rosto. Além dos xingamentos ofensivos e de ironizar o passado de Elize, Marcos ameaçou tirar a guarda da filha e sumir com a criança.

Enquanto o homem proferia tais palavras, ela notou que ele estava perto de uma arma de fogo — já que ambos tinham posse liberada — e, temendo que Marcos a usasse, ela pegou outra e apontou para ele. Segundo o seu depoimento à polícia, era apenas para intimidar Marcos.

Apesar de Elize estar armada, Marcos continuou com as ofensas, o que fez Elize disparar, atingindo a cabeça do marido, que morreu na hora. Por ter conhecimentos técnicos de enfermagem, a mulher esperou o sangue coagular, esquartejou o corpo e desapareceu com os vestígios.

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