Produtora Kika Seixas reúne memórias em livro
A produtora Kika Seixas, ex-mulher do cantor Raul Seixas, lançou a autobiografia “Coisas do Coração: Minha História com Raul Seixas” para documentar e eternizar as lembranças de seus dias cheios de aventuras, amor e dor com o ex-marido.
Por ser autobiografia de alguém que conviveu de perto com o cantor, é natural – e, em certo sentido, inédito – que ela fale sobre um Raul pouco conhecido até pelos fãs. Embora existam mais de 40 livros publicados sobre ele, nenhum chegou à sua intimidade como este, que traz as reminiscências de quem esteve ao lado do compositor por tanto tempo e de maneira tão intensa.
O homem dos dias comuns, o marido, o pai e o amigo emergem em relatos honestos e emocionantes. “Ele era uma pessoa muito doce, tímida e simpática. Não tinha aquela postura de artista, de pop star”, comenta Kika.
HISTÓRIA
Kika, que ainda não era Seixas, trabalhava no departamento de projetos especiais da Warner quando viu Raul de longe, vestido com roupas formais, de terno e tudo, subir ligeiro as escadas do prédio da gravadora para uma reunião. No fim do dia, ela buscou seu fusquinha no estacionamento, onde estava o cantor, que fez um sinal. Em inglês, ele perguntou se a jovem poderia lhe dar uma carona.
A partir dali, o diálogo se desenrola – sempre em inglês – até que, por conta do trânsito ruim e do desencontro de destinos, Raul desce do carro contrariado. “Mas você vai me deixar aqui?”, indignou-se. “Acho que foi por isso que ele se apaixonou”, ela brinca.
Poucos dias depois, Raulzito ligou para a Warner. Ele queria convidar aquela moça para passear e tomar um drink. “Achei bacana, por que não?”, relembra Kika. Era meados de 1979, e o primeiro gole de chope com Steinhäger foi só o primeiro. Essa passagem está logo nas primeiras páginas do livro.
Kika diz que foi tesão à primeira vista. Ela e Raul começaram a se ver com frequência, se apaixonaram, se casaram, tiveram a filha Vivian, e ficaram juntos até 1985. É para a DJ Vivi Seixas, aliás, que o livro é dedicado.
“As memórias já estavam começando a me faltar, o HD vai ficando cheio. Para quem mais eu poderia oferecer esse livro? Ela (Vivian) completou 40 anos outro dia, é uma mulher feita e pode saber do lado trágico e doloroso da minha história com o pai dela, mas também da parte doce e divertida”, afirma a autora.
PROBLEMAS
As dores e as tragédias às quais Kika se refere não são disfarçadas. Em uma das páginas do livro, a franqueza impressiona até os que já conhecem os muitos problemas de Raul com o álcool, as internações para reabilitações – algumas compulsórias – e o sensível quadro de saúde nos últimos anos de vida.
“Eu evitava ao máximo ter bebidas dentro de casa, e restringimos até as saídas e os passeios. Um dia, percebi que ele se trancava no banheiro para tomar o álcool de limpeza que eu comprava no supermercado”, narra Kika em um trecho de “Coisas do Coração”, que pega emprestado o título de uma canção de Raul inspirada na ex-mulher.
PARCERIA
Quando Kika topou escrever o livro a convite da editora Ubook, ela pensou em alguém que a pudesse ajudar nesse processo, e o nome de Toninho Buda, estudioso da obra de Raul e autor de três livros sobre o baiano, surgiu naturalmente.
Kika, então, começou a gravar áudios contando passagens de sua vida com o cantor, e Toninho, que mora em Juiz de Fora, ficou com a função de redigir e organizar essas lembranças. Em encontros quinzenais, a dupla se reunia no Rio de Janeiro para trocar ideias.
Em março de 2020, quando a pandemia estourou, a obra estava praticamente pronta. Com as consequências do Novo Coronavírus no mercado, o trabalho foi adiado, o que trouxe tempo para novas pesquisas.
“Eu e Toninho, que tem papel fundamental nessa obra, tivemos a oportunidade de enriquecer ainda mais o livro, de remexer cartas, fotos e um material do qual eu até tinha me esquecido. Reviramos o baú de novo”, comenta a produtora.
MEMÓRIA
O livro traz cartas de Raul e da mãe dele, Maria Eugênia dos Santos, mesmo após a separação. O músico morreu em agosto de 1989. Desde então, Kika, que nos anos 90 lançou livros, disco e realizou shows com a marca “Baú do Raul”, sempre falou do ex-marido com admiração, respeito.
Além disso, ela divulgou sua obra como pôde, além de cuidar de um vasto e relevante acervo, que hoje pertence também a Vivian, a mais nova das três filhas que Raul teve em seus três casamentos.
“A última carta da Maria Eugênia é de 1995, quando ela diz para eu continuar divulgando a obra do Raul. Antes ela já havia me mandado diversas coisas do báu dele”, ela conta.

CINEBIOGRAFIA
Além do livro, Kika Seixas conta que o diretor Paulo Morelli, de “Cidade dos Homens”, já trabalha na cinebiografia de Raul Seixas. “Assinamos um contrato para um filme de ficção sobre o Raul. Ele já fez uma pesquisa grande sobre o material. Já liberamos nosso acervo”, revela. Em função da pandemia, o filme ainda está em fase de pré-produção.
PATRIMÔNIO CULTURAL
Outro desejo de Kika é criar um centro cultural que abrigue o patrimônio raulseixista que ela e Sylvio Passos, amigo e criador do primeiro do fã-clube do artista, o “Raul Rock Clube”, possuem.
“O baú do Raul existe. Temos roupas, diversos objetos, letras de música, manuscritos, cartas. Para cada disco, o Raul fazia um caderno com anotações, declarações de amor. Ele adorava escrever, escrevia o tempo inteiro”, comenta a produtora, que também não descarta reunir o material em exposições itinerantes.
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