Araçatuba

A arte de olhar para o céu e captar figuras fantásticas e inspiradoras

Por Tiago Lotto |
| Tempo de leitura: 4 min

Tiago Lotto

Um elefante? Um leão marinho? Um dragão? O Superman? Carneirinhos em fila? Raios de luz iluminando Jesus de braços abertos? Discos voadores com alienígenas prontos para invadir a terra, como na clássica cena do filme “Independence Day”? Atire a primeira pedra quem nunca olhou para o céu e enxergou figuras desse tipo, na formação das nuvens, que logo se desfazem ao sabor do vento.

Neste Domingo de Páscoa, a reportagem da Folha da Região recorreu à inspiração de profissionais da fotografia, que enxergam e interpretam suas imagens além da superfície, alimentando a esperança de uma “passagem” para um mundo melhor, que virá depois da pandemia.

É o caso de Angelo Cardoso, o Agê, servidor público da Câmara de Araçatuba. Tem 53 anos e começou a fotografar com 18 anos. São dele curiosos registros de formação de imagens nas nuvens. Como a “manifestação” celeste, uma combinação dos raios do sol ao entardecer, refletindo sobre a estátua do Cristo Redentor (abaixo) da rua Aguapeí, no Hilda Mandarino, em Araçatuba.

Agê e um observador do cotidiano. Teve noção de fotografia, em 1986, com um irmão que é fotógrafo em São Paulo. Voltando para Araçatuba no final de 1987, estava acabando de inaugurar o Jornal da Cidade. O diretor era o jornalista Valdivino Bittencourt e mesmo com pouca experiência na área. “Tive a grande oportunidade da minha vida”.

“Fotografar nuvens é observação. Grande parte das pessoas têm essa observação. Algumas têm a oportunidade de fotografar, já outras apenas gostam de admirar. Olham para o céu e descobrem alguma imagem formada nas nuvens. Desde criança que tenho a curiosidade de olhar para o céu e ver animais e objetos em forma de nuvens”, afirma ele.

“Fotografar pra mim, significa congelar o tempo, para que possamos admirá-lo no futuro. Eu creio que imagem perfeita é aquela que a gente admira com empolgação quando a faz no momento, mas com certeza, outras virão na mesma proporção”, afirma ele, que em outro flagrante do céu identificou o que parece uma raposa voadora (foto a seguir).

A referência à religiosidade e à fé está presente nas interpretações. O chef Alfredo Lo Brutto, ao passar pela Praça Sanseverino, na região da Campania, na Itália, ficou impressionado com a luz através das nuvens, formando a imagem que lembrava a do Cristo Redentor. “Assim que vi essa imagem brilhante, senti uma grande necessidade de compartilhá-la”, afirmou Alfredo a uma emissora de televisão italiana, sobre a próxima foto. “Imediatamente reconheci como a imagem do Cristo Redentor, de braços abertos, como se quisesse abençoar toda a cidade”.

O fotojornalista Toninho Cury é outro exemplo de “pararazzi” das nuvens. Ele registrou para a posteridade o mapa do Brasil bem atrás da torre da Basílica de Nossa Senhora Aparecida, no bairro Boa Vista, em Rio Preto. “Eu juro que não vi na hora de fotografar. Ao separar as fotos que fiz, da janela de casa, é que observei a semelhança da nuvem atrás da cruz da Basílica de Rio Preto com o mapa do Brasil. Que isso seja um sinal para clarear nossos políticos e que logo venha uma vacina para nos salvar”, escreveu Toninho, na postagem da foto abaixo em seu Instagram.

Uma das imagens que mais “viralizaram” foi a captada há alguns anos pelo celular da então médica residente Paola Paschoalin. No enquadramento aparece a fachada gigantesca do Hospital de Base de Rio Preto, com vários raios de luz surgindo do céu para cima da instituição. Postada no site da instituição, a foto foi interpretada como sinal divino, de que Deus, lá de cima, está cuidando dos pacientes e dos profissionais de saúde.

Entre a psicanálise e a teoria da comunicação

Autor do livro “A câmara clara”, um clássico da teoria fotográfica, Roland Barthes faz um tratado sobre os conceitos que chamou de Punctum e Studium: o objetivo (studium) e o subjetivo (punctum). Ele fala sobre o studium como o interesse “guiado pela consciência, pela ordem natural que engloba características ligadas ao contexto cultural e técnico da imagem”. Em relação ao punctum, afirma ter “caráter subjetivo, um interesse que se impõe a quem olha a fotografia, que diz respeito a detalhes que tocam emocionalmente o espectador e variam de pessoa para pessoa”.

O estudo estético de Barthes é fundamentado na psicanálise e vagueia pela teoria da comunicação, de Marshal McLuhan a Walter Benjamin, para lembrar conceitos como os que enfocam o comportamento e a função do emissor e do receptor, em suas relações com o meio, a mensagem e a tecnologia envolvida em todo o processo. Remete a uma mesma linha de raciocínio, como a da interpretação das fotos, para a contemplação de famosas obras de arte. O que se diz, por exemplo, sobre o “sorriso” de Monalisa? O que teria imaginado o emissor (Leonardo da Vinci) ao conceber a obra com aquela enigmática expressão?

Esta e tantas outras situações se encaixam no conceito de punctum, elaborado por Barthes: “é aquilo que fere, que penetra, atravessa e depende das vivências pessoais de quem contempla algo. O reconhecimento desse algo mais que toca, fere e nos ultrapassa: é quase uma poética”. E vai além da poesia para mensurar a concretude da devoção, da fé ou mesmo do ceticismo.

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