Já foi o tempo em que a mentira era tratada com galhofa, parecia brincadeira inofensiva, acabou romantizada na figura do boneco Pinóquio e até ganhou um dia para chamar de seu, o famoso 1º de abril. A brincadeira ficou séria e, em tempos de pandemia, negacionismo e disseminação tecnológica, adquiriu perfil de ousadia em devotos que, sem pudor, chegam espalhar que a terra é plana. Pior: geram perigo de morte ao alardear que vermífugos produzem o milagre da cura do coronavírus.
Na era do WhatsApp, em que as pessoas recebem mensagens de qualquer origem e replicam na ponta do dedo sem checar a veracidade, a mentira deixou de ter pernas curtas e ganhou até um apelido pomposo: “fake news”. A inversão de valores ficou tão fabulosa que, por desinformação ou ideologia, os adoradores da mentira medem pela mesma régua aqueles que defendem a verdade. Checar e combater a mentira se tornou um desafio ainda maior para o jornalismo profissional, alvo preferido dos negacionistas.
Mas por que as pessoas mentem? A reportagem da Folha da Região foi ouvir a opinião de especialistas do setor: psicólogos e educadores, que diariamente enfrentam mentiras e fofocas em seus cotidianos. De acordo com o mestre em Direito pela UniToledo e Doutorando na UNESP, Pedro Luís Novaes Piedade, “as fake news estão inseridas no contexto das mentiras, pois estão relacionadas com a divulgação de notícia falsa, inexistente, na qual o seu divulgador tem a intenção de propagar algo mentiroso. Apesar de muita discussão sobre se esse termo ‘fake news’ é o mais adequado, é o que se popularizou. Para os estudiosos, o fenômeno seria melhor conceituado como desinformação. De qualquer forma, ‘fake news’ é a mentira que agora é propagada nas redes sociais”, disse o mestre em Direito.
Para psicólogo e jornalista Paulo Mantello, as pessoas mentem por vários motivos. “Por trás de uma mentira pode estar desde uma autoestima baixa até uma compulsão. Vivemos em um mundo no qual tudo é muito intenso. Na internet, em redes sociais, todos já mentiram um pouquinho, postando uma foto em que aparentam estar bem, quando na verdade enfrentam dificuldades que não compartilham”, diz Mantello.
Para ele, podem haver casos em que há um aumento da verdade ou um aumento da própria mentira. Também pode ser uma forma de controlar a situação. “Se sou eu que começo a divulgar uma mentira e ela circula, eu me sinto no controle. Isso pode gerar um sentimento de pertencimento. Eu me sinto reconhecido pelas outras pessoas quando minto e elas acreditam em mim. Ou ainda eu posso mentir por não querer acreditar na verdade.”
No caso extremo, pode ser uma patologia, conhecida como mitomania, quando o indivíduo tem uma compulsão por mentir. Ele passa a acreditar na própria mentira e isso acontece com frequência, muitas vezes prejudicando a si mesmo e aos outros. Geralmente está ligado a transtornos do humor e da personalidade, salientou o psicólogo e jornalista.
Questionado se isso pode levar a uma disseminação de notícias falsas, o psicólogo disse que em todos os casos, em menor ou maior grau, a mentira se relaciona com as fake news. “Seja porque a pessoa quer ter seus momentos de fama divulgando uma mentira. Talvez porque não acredita num cenário difícil de aceitar, como a pandemia por exemplo, e se prende a notícias falsas que desmentem a realidade. Pode ser até mesmo uma maneira da pessoa lidar com a própria insegurança: a mentira muitas vezes transmite a imagem de certeza que a pessoa sente falta”, frisou.
Segundo a psicóloga Fabiana Lisboa, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e em Neuropsicologia, o processo de aprendizagem ocorre com a repetição. “Desta forma no ato de mentir segue a mesma lógica. O cérebro se acostuma com a desonestidade, pois quando repetimos comportamento tendemos a aperfeiçoar esta prática e assim tornando mentirosos cada vez mais habilidosos. Mentir como uma maneira de ter vantagem social”, explica ela.
De acordo com o psicopedagogo Diego Nagate, a mentira está relacionada ao outro do que a própria pessoa. No caso da criança, quando ela aprende a contar uma mentira é porque ela está convivendo com isso entre os adultos. “O adulto acredita que a criança não está entendendo algum assunto ‘de adulto’. Mas é correto afirmar que elas, as crianças, entendem tudo o que os adultos estão falando. Viver nesse ambiente faz com que a criança passe a mentir”, disse Diego.
“Estudos psicológicos apontam que até os 7 anos a criança absorve tudo o que ocorre ao seu redor e isso pode definir os traços da personalidade dela para a vida adulta”, completou. (Colaboração Ana Queiroz/Estagiária da Folha da Região)
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