Muito preocupante o rumo que o País ameaça seguir em meio à maior crise sanitária da história recente da humanidade com a pandemia mortal do coronavírus. No dia em que o Brasil bateu mais um recorde diário de mortes, uma dose gigantesca de insegurança institucional com viés de ruptura democrática surge no embalo da troca simultânea de comando da Marinha, do Exército e da Aeronáutica.
Não é preciso ser especialista do texto da Constituição Federal para saber que o papel das Forças Armadas nunca foi, não é e não poderá ser a atuação em defesa de interesses específicos e da satisfação de caprichos ideológicos. As Forças Armadas devem ser absolutamente independentes de amarras político-eleitorais, e ao que parece é assim que pensam os comandantes que acabaram de sair.
A Presidência da República cumpre o seu script óbvio de negar qualquer hipótese de golpe com a troca da chefia nos três órgãos das Forças Armadas por figuras mais alinhadas com o histórico autoritário do presidente Bolsonaro. Porém, diante da insistência em declarações como aquelas que defendem a reedição do sangrento AI-5, qualquer pessoa de bom senso tem o direito de desconfiar seriamente.
É bom lembrar que o presidente, por algumas vezes, já se referiu ao Exército como “meu Exército”, desconsiderando que sua condição de chefe supremo das Forças Armadas não significa subserviência. Neste aspecto, são altamente relevantes declarações claras e categóricas como as do vice-presidente Hamilton Mourão, dizendo que “pode botar quem quiser, não tem ruptura institucional; as Forças Armadas vão se pautar pela legalidade, sempre”.
Com um pouco de juízo, o governo deverá ao menos dar um encaminhamento natural no processo de substituição das chefias da Marinha, do Exército e da Aeronáutica. Mais importante do que nomes, é a forma como os escolhidos vão direcionar suas posturas. Desse cenário depende a saúde do estado democrático de direito e o funcionamento sadio do sistema de pesos e contrapesos representado pela harmonia entre os poderes.
De todo jeito, a verdade é que no meio de uma pandemia mortal, tudo o que o Brasil não precisava era arrumar mais confusão, como essa com as Forças Armadas. Tudo o que o País precisa é caminhar rumo à pacificação, sair desse clima de extremismo, de ódio, se insegurança e de uma inacreditável falta de empatia, enquanto milhares de pessoas morrem e milhões se contaminam todos os dias, sem vacina em quantidade suficiente.
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