Araçatuba

Retrocesso centenário

Por Redação |
| Tempo de leitura: 2 min

Corria o ano de 1904, os hospitais no Rio de Janeiro não tinham mais leitos para atender pacientes, principalmente os vitimados pela varíola. Camadas populares incentivadas por ideólogos malandros de quinta categoria resistiam à vacina produzida à base de líquido de pústulas bovinas. Soava estranho, para leigos contaminados pelas fake news da época disseminadas de boca em boca, serem inoculados por um líquido que, diziam, poderia deixá-los com feições de vacas e primatas. Sob a liderança de Oswaldo Cruz, o governo havia recorrido ao Congresso para implantar a obrigatoriedade da vacina, condição fundamental para a preservação da saúde de todos, e para possibilitar a efetivação de contratos de trabalho, matrículas em escolas, casamento, viagens.

O Rio de Janeiro era uma cidade desorganizada, pessimamente atrasada em gerenciamento sanitário, infestada de doenças, a justificar medidas extremas. Como se sabe, foi daí que surgiu a famosa "revolta da vacina". Além do medo de virar vaca ou macaco, parte da população desinformada não considerava decente ter de expor braços nus e glúteos para agentes de saúde fazerem a aplicação do líquido salvador.

Os interesses que moviam os negacionistas da vacina, porém, não se esgotavam na vacinação nem nos rígidos padrões morais da época. Transbordavam para a política, o que levou a uma semana de conflitos. Foram ao menos 945 prisões, 461 deportados, 110 feridos e 30 mortos em menos de duas semanas. Diante da pressão, o presidente Rodrigues Alves desistiu da vacinação obrigatória e todos perderam. Pouco tempo depois, o Rio de Janeiro quase foi dizimado por uma terrível epidemia de varíola. Por volta de 1908, diante do avanço da epidemia,a população percebeu que não haveria outra saída. Houve uma corrida à vacina até então repelida. Ninguém mais se importava com o perigo, inexistente, de ficar com feições bovinas. Estava em curso a tardia corrida pela sobrevivência.

Até o fim de 2019, essa história da revolta da vacina de 1904 soava como algo impensável nos dias de hoje, embora compreensível na contextualização para uma época de pouca informação. No entanto, mais de 110 anos depois, com todo o avanço da ciência, do conhecimento e datecnologia, um batalhão de brasileiros voltou a acreditar que a vacina contra a Covid-19 é capaz de transformar as pessoas em jacaré, como afirmou algumas vezes ninguém menos que o presidente da República. É inacreditável que veículos de imprensa tenham de fazer a campanha "vacina sim", para convencer a população a se imunizar. Assim como em 1908, a população começa a perceber, após mais de 250 mil mortes e de mais de 1 mil vidas perdidas todo dia, que a vacina é a única saída.

Um tanto tarde, pois o negacionismo do governo federal contribuiu perniciosamente para retardar a compra do imunizante, e agora ainda serve para governos estaduais oportunistas fazerem propaganda e surfar no luto nacional.

Fale com o Folha da Região!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários