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Artigo: 2021 e suas heranças

Por Redação |
| Tempo de leitura: 3 min

Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista e
professora. Empresária da área da Educação em
Araçatuba

“Aquilo que não nos mata, nos fortalece”. Na retrospectiva do ano que passou, nunca este ditado popular fez tanto sentido. Quem chegou vivo ao final de 2020 deve se sentir privilegiado. Quem não perdeu ninguém amado com a pandemia da Covid-19 precisa comemorar. Quem mantém emprego ou renda diante da crise necessita cultivar a gratidão. Quem escapou da pandemia até agora com alguma saúde mental tem que centrar esforços para superar 2021 porque as heranças não são boas, ao contrário, são traumáticas. O ano que se desenha ainda é caótico. Sem vacinas e na segunda onda da doença; sem o auxílio emergencial para os miseráveis, mas especialmente sem a consciência do perigo das aglomerações, o brasileiro vai traçando um caminho tortuoso onde não há saídas mágicas e o final é trágico. Basta analisar os números. O noticiário não se cansa de mostrar aglomerações diárias de pessoas que, de norte a sul do país, vivem, em êxtase, o “f.. a vida” que a influenciadora Gabriela Pugliesi antecipou. Não se trata de um ou outro veículo esquerdista disposto a difamar qualquer gestor público. São fatos comprovados por todos. E contra fatos não há argumentos, certo? Sem ignorar a noção do perigo da contaminação de si próprio ou dos seus, estes narcisos tupiniquins se acham tão inatingíveis que não medem as consequências das suas atitudes. Podem se matar ou causar a morte de pessoas, mas “e daí? Um dia elas iam ter que morrer, mesmo, não é?” Não é. Este raciocínio é de gente muito limitada, com sérios comprometimentos cognitivos. Essa necropolítica de alguns gestores públicos, jogadores de futebol e outras pessoas famosas (não pelas suas inteligências) estampada nos maus exemplos das aglomerações, no não uso de máscaras e na ausência de políticas públicas austeras que salvem a população espalhou-se como um câncer pelo tecido social.

A tal ponto que quem prioriza as ações prescritas pelos profissionais da saúde e aqueles que lutam pela conscientização são taxados de “chatos”. Vivemos o avesso, do avesso, do avesso como já cantou Caetano. Mas tem pouca gente preparada para esta conversa. Por isso que 2021 é simbólico. Nele veremos – ou pior, sentiremos na própria pele – as consequências das nossas ações. Se forem boas, teremos alguma chance de não chorar. Se continuarem alienadas, só teremos mais dor e sofrimento. Sim, 2021 “vai ser dar cor que você pintar”. Poderá ser um ano de “um novo dia de um novo tempo que começou. E nestes novos dias, as alegrias, serão de todos é só querer. Todos os nossos sonhos serão verdades, o futuro já começou”, como acalentam os jingles. Mas é claro que tudo depende de cada um de nós. Contra o eu, o aqui e o agora, é preciso resgatar o “pensamento catedral”, do pensador australiano Roman Krznaric. Em seu livro “The Good Ancestor” (“O bom ancestral”), ele denuncia que vivemos na “era da tirania do agora”, que tem um “curto prazismo frenético” que só gera crises. Para o autor, a solução está na capacidade de conceber e planejar um projeto com horizonte amplo, de décadas ou séculos à frente, baseado na ideia das catedrais medievais.

Quem as construía, sabia que não as veria concluídas, tão grande era a obra. Da mesma forma como aconteceu com a Grande Muralha da China ou a própria construção de Brasília. Que 2021 seja, então, o ano do resgate do pensamento catedral, de longo prazo, onde as pessoas se esqueceram de si e pensarão no próximo, na coletividade.

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