Passam-se os anos e os problemas recorrentes da falta de energia elétrica permanecem. Quando chove na região de Araçatuba é sinônimo de sistemáticas interrupções no sistema de energia elétrica para a zona rural do município. Mas agora não tem tempo chuvoso ou seco em Araçatuba e quem mora na área rural diz que o problema se tornou constante e sem tempo, nem hora pra acontecer.
Rosimeire de Fátima Rafael, 53 anos, produtora rural
Na noite do dia 7, por volta das 22h de segunda-feira, Meire – como é conhecida – estava em casa, cansada por conta da rotina na pequena propriedade que mantém no Assentamento Chico Mendes, localizado na Estrada Córrego Azul, a 60 km de Araçatuba. Pela manhã foi até a cidade comprar mantimentos para a família de cerca de oito pessoas, estava se preparando para tomar banho quando ouviu um som familiar e de péssima recordação: a energia tinha acabado de cair. “Olha filha, quando isso acontece, não só eu, mas tudo mundo já sabe o que tem que fazer: primeira coisa é sair correndo e se preocupar com o leite, salvando o leite, o resto que estragar é uma perda mas é uma perda menor”, conta. Meire, é produtora de leite, por dia ela tira cerca de 60 litros, é com essa produção que ela sustenta a família.
O processo de produção é estritamente delicado e está a mercê ás condições do tempo e é imprescindível a energia elétrica para manter o leite em temperatura ideal. “A gente acorda muito cedo, ordenha as vacas, o leite a gente coloca no resfriador e a cada quatro dias o leite ‘pega’ – é o momento em que o comprador manda um caminhão até as propriedades de quem produz leite para comprar o alimento e antes de coletar o leite passa uma avaliação e precisa estar com quatro dias completo em temperatura definida - se acaba a energia e o leite ainda está nos tanques de dois a três dias, estraga. Aí precisa jogar fora toda uma produção porque ninguém compra”, responde.
O relato da produtora é um misto de indignação e revolta para o que ela chamou de descaso com quem não mora na cidade. Naquela noite, 7, Meire ficaria mais de 12horas sem energia e o problema ai muito além dos limites dos galões. “Ficamos sem energia no início da noite do dia 7, amanheceu, e continuávamos sem energia. Começou outra dor de cabeça: Não dava pra ligar as bombas, aqui temos 40 cabeças de gado. Estavam sem água”, completa. “Começou a dar um desespero, não tinha água em casa, a bomba não tinha como funcionar, logo agora, que minha filha ganhou bebê e a gente passando por esse problema. Este mês – que acabou de começar – faltou duas vezes energia, ela fica oscilando, tem gente aqui que perdeu mais do que a produção. ”, adianta a produtora.
COMOÇÃO NAS REDES SOCIAIS
A falta de energia ia avançando o único meio de contato era o que sobrava de bateria do celular, então Meire resolveu postar nas redes sociais o que estava passando. Rapidamente a postagem viralizou, na manhã do dia 8, mais de 70 pessoas compartilharam as fotos e os relatos da produtora de leite. Enquanto isso, um movimento começou na área, o de ligações para a CPFL Paulista. Segundo moradores a previsão de normalizar a volta da energia elétrica estava desencontrada.
“Ligamos para o 0800 da CPFL, mas a ligação caia, outros vizinhos fizeram o mesmo, a primeira previsão que passaram pra gente era de hora em hora, aí não voltava, a gente ligava de novo... e no fim não sabíamos o que estava acontecendo de verdade”, conta Fátima.
Após 12 horas de apagão a energia foi normalizada por volta das 10h30 de terça-feira, no entanto, menos de 48 horas depois, nova queda foi registrada no assentamento, desta vez, na manhã de quinta-feira,10.
Jaqueline Correa Leite Negrão, 23 anos, produtora rural
A família de três pessoas da Jaqueline mora no assentamento há 10 anos, e a falta de energia é tão presente na rotina deles quanto a hora marcada de ordenhar as vacas. Na quinta-feira, quando novo apagão aconteceu, Jaqueline relata com detalhes a dor de cabeça que teve para mais uma vez lutar para não ficar ainda mais no prejuízo. “Quando cai energia aqui, ela não volta com menos de seis horas. Desta vez a gente só não perdeu o leite, porque corremos pra cidade vender.
Disseram que o problema de quinta, foi por conta de um caminhão da usina que derrubou um poste, só que a gente soube disso, não por eles, mas porque mantemos um grupo pelo Whatsapp e por lá que os próprios moradores se mantém informados”, explica. No caso da família Negrão, o prejuízo não foi apenas o produtivo, mas o material. Ela conta que já perdeu geladeira, micro-ondas, o fogão elétrico entre outros eletrodomésticos ao longo do tempo em que mora ali.
“O que acontece é o seguinte: nós levantamos cedo, fazemos a rotina no sítio e quando estamos na cidade e acontece um apagão, não tem como voltar para desligar as coisas. E a gente não pode deixar a casa toda desligada, há funções específicas que precisam estar funcionando enquanto estamos fora, e quando a energia oscila, volta com tudo e queima as coisas”, reclama.
Jaqueline também mantém um relatório de quanto gasta a cada visita técnica por conta de estragos causados pelo vai-e-volta da energia. “Temos nossos tanques de leite, e toda vez que a gente fica sem luz, os tanques desregulam, eles não pegam temperatura, e aí chama o técnico. Cada visita custa 350 reais. É muito caro pra gente. E eu não acredito naquela solicitação de ressarcimento à concessionária quando queima equipamento porque conheço gente que fez a solicitação há tempos e nunca teve retorno”, desabafa.
E DO OUTRO LADO DA LUZ
A CPFL Paulista, em resposta à Folha da Região informou que a interrupção no fornecimento de energia registrado na terça-feira, 8, no assentamento Chico Mendes, foi causado pelo furto de um regulador de tensão, um equipamento que pesa em torno de 400 quilos, e que segundo a concessionária, seria essencial para manter a voltagem da linha dentro dos padrões de funcionamento da rede de energia.
A reposição do equipamento foi feito na tarde do mesmo dia. “ A distribuidora esclarece que o assentamento está localizado no final de uma linha de rede elétrica com mais de 40 quilômetros de extensão e, por isso, interferências externas como queda de árvores, descargas atmosféricas, queimadas e postes atingidos por veículos podem causar quedas pontuais de energia”.
Por e-mail, a CPFL Paulista, explicou que está estudando ajustes na estrutura que abriga os equipamentos para garantir uma rede mais confiável à região atingida.
ORIENTAÇÃO
Sobre os equipamentos danificados, a distribuidora orienta que os clientes entrem em contato por meio de seus canais de atendimento digital (www.cpfl.com.br e pelo app CPFL Energia) e solicitem o ressarcimento seguindo os procedimentos padrão. Os pedidos podem ser solicitados até 90 dias após a ocorrência que teria danificado o aparelho.
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