Cultura

Soletrando: Perdas e ganhos

Por Redação |
| Tempo de leitura: 3 min

REYNALDO MAUÁ JR

Sérgio era um funcionário público dedicado, pontual e honesto. Diziam, mesmo, que era um caso raro de servidor. Daqueles cujo tipo estão cada vez mais difícil de ser encontrado.

Nunca faltava ao serviço, nem mesmo por poucas horas, para resolver problemas particulares. Atencioso com todos e todas, não se levantava nem ao menos para tomar os prolongados cafezinhos de quando em quando. Coisa que consumia, no geral, quase metade do, já reduzido, horário de trabalho diário da turma.

Contudo, a vida cobra de indivíduos assim. Dizem algumas teorias dos antigos filósofos de botequim, que toda pessoa muito boa, que está em paz com o Criador, e as exageradamente ruins, como resultado de acordos espúrios com o Canhoto, levam suas vidas sobre um fio de navalha. Um passo em desacordo com os desígnios do destino, são os primeiros a serem levados para conversar com o Síndico do Andar de Cima. Ou com o Feitor do Buraco de Baixo.

Foi o que aconteceu com Sérgio. Uma promoção, que fazia jus a todo o seu comportamento e competência de funcionário exemplar, colocando-o no topo da carreira perseguida, deixou-o tão emocionado e exultante que seu puro e decente coração parou de batucar. Comoção generalizada no departamento. Menos para o seu colega de trabalho Pereira, preterido na promoção, que, agora, estava bastante eufórico com a nova chance. Mas este é outro caso.

No velório de Sérgio estavam presentes toda a repartição, os muito amigos, angariados ao longo de uma trajetória de vida exemplar e ilibada, os companheiros do Rotary, os irmãos maçônicos, os colegas do coro da igreja, os vizinhos e alguns curiosos que passavam pela rua, por perceberem tamanha concentração de pessoas no pequeno espaço disponibilizado na Câmara Municipal. Não fosse o bom senso de algumas autoridades, o evento poderia ter alcançado ares de palanque político pelo tamanho da oportunidade.

Eram tantos os encontros entre amigos, partidários e considerados, que deixaram a viúva derramar seu pranto em paz e, praticamente, solitária. Marlene, mesmo chorando, permanecia linda como sempre fora. Esta, sim, seria uma perda para a natureza humana. Uma beleza discreta, firme, harmoniosa para uma mulher de 46 anos, sem descendentes. Neste momento passava quase desapercebida pelo uso de um véu negro a cobrir sua face desconsolada, abatida pela dor.

Nonato, amigo de longa data da família e solteirão convicto, até àquele momento, à parte da dor exalada pelo aroma das flores em processo de desmaio, aproximou-se, evitando ser notado pelos demais, e, sem a resistência das amarras dos votos de um casamento – “até que a morte nos separe” – revelou todo seu afeto, guardado e anulado há tempos, por conhecer a índole afetiva do, agora, ex-casal, à Madalena. Desnudou seus sentimentos mais ternos e sinceros, com o fio de voz que lhe restava.

Tão calma, como era sua marca registrada, sem demonstrar surpresa com as palavras pronunciadas e ouvidas, sem alterar sua postura, com o coração ardendo diante de outra oportunidade oferecida pela vida, Marlene deixou-se abraçar por Nonato, como tantos outros abraços recebidos naquela circunstância, mas, neste caso, sussurrou a um ouvido incrédulo, quase como uma ordem: “procure-me quando eu não estiver mais chorando”.

Reynaldo Mauá Junior é membro da Academia Araçatubense de Letras

Fale com o Folha da Região!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários