EDITORIAL
"Governo precisa fazer sua parte para que a retomada seja segura e encontrar alternativas que não comprometam o ensino".
Retomar as aulas presenciais com segurança e sem prejudicar a qualidade do ensino é um desafio nunca antes visto na história deste país e mundo agora. Um desafio que se impõe diante da pandemia do coronavírus, ameaça de proporções raramente vistas na história da humanidade. Desenvolver mecanismos para a volta às aulas presenciais em segurança é, antes de tudo, uma responsabilidade do governo em todas as suas esferas, naturalmente sob a desejada liderança do governo federal, para que a retomada ocorra da forma mais controlada possível, sempre colocando a preservação da vida em primeiro lugar.
Entre as alternativas que já estão sendo adotadas diante do atropelo da doença que forçou a suspensão das aulas presenciais já em março estão os meios digitais. Cada uma de acordo com suas estruturas, as instituições de ensino têm tratado de desenvolver e transmitir conteúdos pela internet, parte com adesão agora, parte ampliando um sistema que já existia e que teve de ser acelerado. Novas tecnologias estão sendo empregadas, principalmente pelas instituições particulares de ensino, de forma a reduzir ao máximo as perdas provocadas pela falta de contato pessoal entre professores e alunos.
Como era previsível, diante do histórico de negligência de sucessivos governos incapazes de enxergar a educação como prioridade, grande nó da questão se dá no âmbito das escolas públicas. Reportagem distribuída pela agência de notícias Folhapress traz um triste exemplo dessa negligência, que vem de 2019 e gera consequências num momento em que internet de qualidade definitivamente passou a ser gênero de primeira necessidade nas escolas. O Ministério da Educação anunciou que 70 mil escolas seriam beneficiadas com dinheiro federal para instalar conexão, com o investimento de R$ 224 milhões no ano passado. Só 16% desse recurso, equivalente a R$ 36 milhões, foram de fato pagos no período.
Enquanto isso, nenhum centavo dos R$ 135 milhões previstos no orçamento deste ano chegou a ser empenhado. A justificativa do MEC é que neste ano ainda está executando as pendências orçamentárias do ano passado. Em plena pandemia, de efetivo mesmo só restou o discurso de novembro de 2019, que merece ser resgatado como exemplo de notório descaso: "Quando as aulas recomeçarem em 2020, nossas crianças terão uma novidade: internet em banda larga", escreveu nas redes sociais o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, bravateando aos costumes: "Antes, escola pública com internet era exceção. Com o governo Bolsonaro, passará a ser a regra!"
O atraso torna-se ainda mais dramático em tempos de coronavírus. De nada adianta, aliás, centenas e milhares de escolas terem internet se, em casa, os estudantes continuarem enfrentando a exclusão digital. Sem a devida abrangência, o mínimo que se espera das autoridades agora é capacidade para reconfigurar de forma minimamente decente o calendário letivo de 2020. Se a qualidade do ensino está irremediavelmente comprometida, que pelo menos não se comprometa a saúde dos alunos e, por consequência óbvia, a saúde de seus amigos e familiares do lado de fora do ambiente escolar. E que a dura lição da Covid-19 sirva para que, de uma vez por todas, se comece a aprimorar o uso da tecnologia como complemento e como alternativa em relação ao ensino presencial.
Fale com o Folha da Região!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.