Nenhuma vida vale mais que a outra. Mas a banalidade da violência no Brasil tem chegado a tal ponto que a morte de inocentes se transformou em motivo de briga de torcida. Cega para as questões humanas e nobres - como o amor ao próximo e a empatia - parte da sociedade está se digladiando nas redes sociais e no cotidiano sobre quem tem ou deve morrer e não ser chorado.
Nesta segunda-feira, por exemplo, parte do Brasil se viu em um debate insólito sobre as tragédias ocorridas no Rio de Janeiro, onde uma criança e dois policiais morreram. Os casos lamentáveis, que deveriam unir a Nação em uma discussão firme sobre o combate à violência por medidas sérias, como maior acesso à educação e à qualidade de vida, se transformaram em um Fla-Flu macabro.
Enquanto alguns lamentavam a morte da pequena Ágatha Vitória Sales Félix, de 8 anos, assassinada com um tiro nas costas, outros relativizavam citando o número de policiais mortos. A tristeza também pelo assassinato do policial militar Fellipe Brasileiro Pinheiro, 34, cuja vida foi ceifada no cumprimento da missão, chegou a ser minimizada por quem chorava pela menina.
O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), por exemplo, que não se manifestou sobre as mortes em todo o fim de semana, só quebrou seu silêncio ontem para criticar os parentes da pequena Ágatha que cobravam providências das autoridades.
Em tom bélico, Witzel reclamou das cobranças e bradou que o caso da garota não pode ser utilizado como "palanque eleitoral" ou com o objetivo de obstruir votações importantes como o pacote anticrime do ministro da Justiça Sergio Moro.
Fez isso para reagir à pressão de parte dos parlamentares que querem rever a chamada cláusula de excludente de ilicitude, defendida por Moro. Segundo a proposta abraçada pelo ministro da Justiça, policiais que agirem com excesso devido a "escusável medo, surpresa ou violenta emoção" podem ter a pena reduzida ou até serem absolvidos.
Witzel culpou pela morte de Ágatha o tráfico de drogas, que, segundo ele, utiliza os moradores das comunidades como escudo contra a polícia, e os usuários dessas substâncias. Repetiu um discurso antigo e nada falou da morte do policial militar, que inclusive foi o segundo a ser assassinado no estado fluminense somente no final de semana.
Para quem esperou dele ou de qualquer outra autoridade um plano para salvar a vida das futuras vítimas, construindo um país mais justo, se frustrou. O dia seguiu como um triste baile de declarações vazias e disputas de torcidas organizadas, principalmente nas redes sociais.
O país tem que deixar esta divisão de lado, iniciada pela esquerda e comprada barato e sem reflexão pela direita, para olhar realmente para os que não interessam.
A sociedade sabe que sem educação decente, sem dar às novas gerações pelo menos o direito a sonhar com dias melhores, a bala quente continuará cortando a pele das vítimas, de todas as classes sociais.
E vale lembrar: ninguém está fora da linha de tiro, nem os de esquerda, nem os de direita, nem seus filhos, pais e amigos.
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