Filhos de fazendeiros, servidores públicos, políticos, empresários e amigos dos donos da universidade. Esta é a ‘clientela especial’ citada pela Polícia Federal, ontem, como os grandes beneficiários com possíveis fraudes no acesso ao curso de Medicina que poderiam estar acontecendo nesta parte do interior paulista.
Para averiguar as entranhas deste processo de facilitação ao acesso à faculdade, com direito a bolsas e transferências para universidades em países como Bolívia e Paraguai, foi realizada, na manhã de ontem (03), a operação "Vagatomia". Há indícios de que a fraude acontecia em centros educacionais em São José do Rio Preto, Fernandópolis e até na capital.
A cobertura completa da operação está na edição de hoje da Folha da Região. O que o jornal quer enfatizar, em seu editorial, é o sentimento de repúdio da sociedade. Enquanto milhões de brasileiros são alijados de seu direito a ter acesso ao curso superior e outros milhões dedicam anos de vida ao estudo para passar no vestibular para Medicina, algumas centenas entraram no curso em processos de cartas marcadas.
Um tipo nefasto de corrupção que marca a vida do futuro profissional desde o princípio da carreira. E pior, sob incentivo e financiamento dos pais, privilegiados monetariamente. E ainda sujam o nome das demais pessoas que foram aprovadas com elas nas universidades agora investigadas. Ficam todos sob suspeita por causa da ação de uma minoria que ainda não aprendeu que o Brasil já não é mais dos espertos.
É louvável a ação da polícia, pois ela joga um pouco de justiça em um dos pilares sociais, que é a educação. A escolaridade é um fator determinante do nível de renda e até dos limites de salário. Em um país em que a remuneração média de quem tem ensino médio completo é de R$ 1.000, o valor salta para R$ 4.600 para quem concluiu uma faculdade. Estatisticamente, ter pais que frequentaram a faculdade amplia as chances de os filhos atingirem o mesmo patamar.
E ao comprarem vagas - como parece ser este o caso que está sendo investigado pela PF - estes jovens estão tirando as chances de outros candidatos e de suas gerações futuras. Não é um crime simples de corrupção, é um atentado contra o presente e o futuro do Brasil.
O acesso à universidade é coisa séria e é cada vez mais difícil. Ao mesmo tempo em que há cortes seguidos de recursos por partes do governo federal, quem já teve acesso a bolsas, por causa do desemprego e da crise, não está conseguindo pagar o financiamento.
Dados mais recentes do Ministério da Educação mostram que desde o início do ProUni, mais de 115 mil bolsistas deixaram a universidade por evasão. Entre os estudantes negros, essa taxa retrata a realidade de 63 mil alunos (pretos e pardos), ou seja, 54%. Já entre os estudantes brancos, essa taxa representa 48 mil alunos, 41%. A proporção de evasão é semelhante à divisão das vagas nas duas categorias – em 2018, dos 117 mil bolsistas, 71 mil eram pretos e pardos (61%) e 43 mil, brancos (37%).
Enquanto alguns filhos de fazendeiros, servidores públicos, políticos, empresários e amigos dos donos da universidade, se “dão bem” por baixo dos tapetes, os negros e pobres não conseguem se manter na faculdade, nem estudando e ganhando bolsas.
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