Escrevo após as manifestações que levaram às ruas alunos, professores, funcionários de escolas e simpatizantes da causa Educação. Por todo o país e principalmente nas cidades com instituições de ensino ameaçadas com o corte/contingenciamento de verbas, inclusive Araçatuba, o público se reuniu contra as medidas do governo federal.
Foi o bastante para o presidente da República declarar à mídia: “…a maioria (dos manifestantes) é militante. Não tem nada na cabeça. Se perguntar 7 x 8 não sabe. Se perguntar a fórmula da água, não sabe. Não sabe nada. São uns idiotas úteis, uns imbecis que estão sendo utilizados como massa de manobra de uma minoria espertalhona que compõe o núcleo de muitas universidades federais do Brasil”. Ele se referia aos representantes de partidos políticos e outros movimentos infiltrados nas passeatas lutando por suas causas particulares.
A repercussão imediata às declarações do presidente aconteceu por causa dos xingamentos, especificamente a parte dos “idiotas úteis”. Aproveito, então, para apresentar o pensamento de dois filósofos: Mário Sérgio Cortella e Renato Janine Ribeiro, esse, ex-ministro da Educação (2015). Na obra “Política para não ser idiota”, eles explicam que há 2.500 anos, os gregos chamavam de “idiota” aquele que não participava da vida coletiva, era fechado em si mesmo, só olhava para o próprio umbigo defendendo seus próprios interesses. O lema deste tipo de gente poderia ser: cada um por si. Os políticos, ao contrário, eram aqueles que participam da vida da cidade, se preocupavam com os outros e defendiam a ideia de “um por todos e todos por um”. A humanidade parece ter conseguido inverter estes significados, não é?
Assim, o presidente erra ao ofender os estudantes. Eles não idiotas. Estão se manifestando democraticamente por uma Educação melhor que beneficiará milhões de brasileiros, do maternal ao ensino superior. Mas se há um consolo no xingamento é ser um idiota “útil”. Pior seria um idiota inútil, que não serve para nada.
Ayne Salviano é gestora educacional
Fale com o Folha da Região!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.