O presidente Jair Bolsonaro instruiu as Forças Armadas a comemorarem hoje, 31 de março, o momento em que os militares tomaram o poder em 1964. Sem usar as palavras golpe e ditadura, o chefe do Executivo acredita que os militares fizeram o que o povo desejava. Então me lembrei de Etienne de la Boétie.
Em 1552, este estudante de Direito, francês, de 18 anos, escreveu um panfleto denominado “Le Discurs de la Servitude Volontarie – O Discurso da Servidão Voluntária”. Nele, explica que a servidão voluntária se inicia quando um povo abdica de sua liberdade para servir ao soberano em troca de proteção.
Servidão voluntária é diferente de servidão. Não se trata de servir no sentido de trabalhar. Significa que a multidão se permite escravizar nos atos, nas palavras e nas ideias pelo hábito (somos ensinados a obedecer), pela covardia (sob as tiranias, até as disfarçadas, nos acovardamos) e pela participação (esperamos estar nos conluios dos escolhidos).
Para uma sociedade não ser condenada à servidão voluntária, o filósofo suíço Rousseau (1712-1778) ensinou a receita. Ele acreditava que somente a educação livra o povo do jugo. Ensinados desde a infância, os indivíduos se conscientizam da necessidade de criação de uma liberdade civil formando uma sociedade em que a população é soberana e o governante é quem tem que prestar contas a ela.
A educação é o caminho. A educação é a saída. A educação é a salvação. Por isso, quando governantes de todos os tempos não alinham políticas públicas de educação em benefício dos menos favorecidos, é preciso pensar que esta falta de conhecimento, que facilita a manipulação, é a artimanha dos tiranos para bestializar seus súditos, de forma atemporal e universal.
Não investir em educação é projeto político. Engana-se quem pensa que a proteção dos tiranos são as armas, as fortalezas e os exércitos. Os protetores dos tiranos são a sociedade inteira. Um povo inculto se sujeita e se degola.
Ayne Salviano é gestora educacional
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