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‘Carnis levale’

Por Redação |
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A machete da Folha da Região de ontem, 28, traz uma triste constatação: na era da informação, a aids ainda continua sendo transmitida por aqueles que, sem cuidado, acabam por se relacionar com pessoas contaminadas, ainda que não o saibam. Junto com tudo isso, ainda vem o preconceito que irá acompanhar estas pessoas pelo resto da vida.

Em tempos remotos, o Carnaval, do latim, ‘carnis levale’ ou, ‘retirar a carne’, era considerado uma “retirada da carne” numa tentativa da igreja Católica de retirar o estigma dos prazeres carnais trazidos pelas festas pagãs que associavam subversão, inversão de papeis, bebida e orgias a esta época de festas. Em Roma, Baco (ou Dionísio, para os gregos), deus do vinho, era o homenageado com embriaguez e entrega aos prazeres da carne. Na Babilônia, das Saceias vieram a subversão e a inversão de papeis. Um prisioneiro era tratado como rei durante este período. Vestia-se, alimentava-se, dormia com suas esposas e, ao final, era morto por enforcamento ou empalado.

A Igreja não via com bons olhos estas comemorações e acabou por definir alguns dias para que seus seguidores cometessem todos os excessos antes do início da Quaresma, que seria o período de severidade religiosa. Assim, após os excessos, seria possível conseguir a purificação retirando o consumo de carne durante os 40 dias que antecedem a ressurreição do filho de Deus, conforme creem os católicos.

Passados séculos, o intuito do Carnaval continua o mesmo, pelo menos, no Brasil. Bebida, sexo e muitos excessos são liberados nos dias que antecedem o início do período de promessas. Àqueles que se fartam nos dias de festa, fica incutida a ideia de que, abstendo-se de carne, doces ou algo de que se goste muito, terão os pecados perdoados enquanto aguardam, simbolicamente, a data em que Cristo ressuscitou.

Neste sentido, já há algum tempo, a preocupação na área da saúde pública com festas ‘liberadas’ como a que se inicia hoje, vem, justamente, na tentativa de combater os excessos que levam a atitudes impensadas. A liberdade acompanhada de libertinagem que se instala nos dias de festa, especialmente entre os mais jovens, que não acompanharam um geração dilacerada pelo surgimento da aids, é preocupante.

Os custos, para o indivíduo e para o Estado, são altos. Por isso, ao oferecer medidas de proteção ou, até mesmo, a profilaxia pós-exposição ao vírus, o intuito não é passar a ideia de que está tudo liberado, mas sim, oferecer informação e proteção para que os indivíduos possam ter um socorro, caso necessitem.

Embora os números apresentem quedas constantes, a faixa etária que menos se protege é justamente a da geração que viu os estragos da aids, quando foi identificada no início dos anos 80. Adultos hoje, com idade entre 35 e 54 anos, são responsáveis por 49% dos casos, em Araçatuba. Esta geração que viu a epidemia que ceifou uma infinidade de vidas, mas que, aparentemente, não incorporou o hábito do sexo protegido. Jovens com idade entre 19 e 34 anos, que, por sua vez, sempre foram instruídos sobre as formas de prevenção, representam 43% dos casos. A falta de responsabilidade é latente e o famoso “não vai acontecer comigo” faz do sexo desprotegido uma roleta russa, ou seja, é o mesmo que tentar a sorte com a arma carregada com apenas uma bala. Uma hora, acerta o tiro.

Ana Cenci é jornalista e advogada

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