O galo da vizinha nem havia cantado e Marcelino já estava pronto para sua partida de futebol. Gel com brilho molhado nos cabelos, meiões até os joelhos, chuteiras, camiseta Dry Fit. Quem se deparava com aquele homem de quarenta e oito anos pensava que ele estava indo disputar a final da Libertadores. Mas o destino era bem mais próximo: o Esporte Clube Corinthians, logo ali na rua Rio de Janeiro.
Anos atrás, Cilo, um entusiasta do esporte, havia criado um grupo de futebol para se divertir com seus amigos. Sem pretensão ou preconceitos, lá todos podiam jogar: novos, velhos, altos, baixos, magros, gordos, craques e pernas-de-pau. E o tal encontro ficou tão sério que acabou virando um ritual (que acontecia todos os domingos, logo pela manhã).
Por causa da idade avançada de seus jogadores (lembre-se que, no futebol, um jogador de trinta e cinco anos já está literalmente pendurando a chuteira), o grupo havia sido batizado com um nome engraçado, que só acabou sendo revelado a terceiros quando Marcelino estava saindo de casa.
Rosa, a cozinheira da família, deu um grito ao ver um vulto passar pela sala. "AAAAAAAAAAH! SAI DE RÉ, ASSOMBRAÇÃO! MEU DEUS É MAIOR!" Marcelino deu risada. "Calma, Rosa! Sou eu." O coração da cozinheira batia cento e vinte vezes por minuto. "QUÉ MI MATÁ, SEU MARCELINO? SEIS E MEIA DA MANHÃ E ME PASSA UM HOMI TODO COLORIDO DESSE? ACHEI QUE FOSSE ESPÍRITO DE PALHAÇO!"
Marcelino caiu na risada, explicando. "Relaxa, Rosa. Sou eu indo pro Menopausa." A cozinheira ficou brava. "O SENHOR BRINCA COM MENOPAUSA PORQUE NÃO SABE O QUE EU PASSEI! SÓ POR DEUS! Veio uma fome de leão, engordei quinze quilo, meu colesterol foi pras altura, um calor na cara que vinha e voltava, dor pra uriná, insônia, as unha fraca, os cabelo caindo. COMI O PÃO QUE O DIABO AMASSÔ, NUM VEM TIRÁ CÁ MINHA CARA!"
Marcelino caiu na risada novamente. "Rosa, eu tô indo PRO Menopausa, não entrando NA menopausa. É um grupo de futebol. A gente chama de Menopausa porque todo mundo lá tem da minha idade pra cima." A cozinheira não achou graça nenhuma, batendo a massa de pão de queijo na pia com força. "Homi é uma raça que precisava sê extinta, né? Ô trêm sem propósito, Deus me livre! A cobra deveria tê oferecido a maçã era pro Adão. E envenenada, qui nem a da Branca di Nevi…"
Enquanto Rosa seguia seu discurso, o carro de Marcelino já dobrava a esquina rumo ao supermercado. Após o término da partida, todo santo domingo, os jogadores do Menopausa faziam uma boquinha, apelidada de "Hora da Mordomia". Carne de panela, vinagrete, cervejinha… Cada semana, um dos participantes era o responsável por levar os itens necessários. Naquele domingo, a responsabilidade estava nas mãos do patrão de Rosa.
Bem, a partida rolou. E que partida! Geovaldo Coalhada, irmão de Marcelino, logo saiu de campo. "Tô travado". Alguns colegas acharam que ele tinha bebido. "Porra, irmão! Logo de manhã?" Geovaldo fez cara de dor. "Antes fosse. Tô travado das costas." Jô da Farmácia também abandonou o gol no primeiro tempo. "Foi a gota!" O pessoal pensou que ele tinha ficado bravo por causa de um pênalti mal marcado, mas ele esclareceu. "Não, foi a gota mesmo. Pé inchado. Exagerei no sal."
Vendo que a bruxa estava solta, o Menopausa desencanou da partida. Afinal, era um grupo criado para diversão, não por obrigação. E focou na "Hora da Mordomia", a tão esperada boquinha (ou "aperitivo", como alguns preferiam chamar). Marcelino, que havia escolhido fazer um churrasquinho, já estava todo animado. Virava os espetos com a segurança de um churrasqueiro da Fogo de Chão.
A alegria dele durou pouco. Quando abriram o imenso isopor lotado de gelo e latinhas de cerveja, os membros do Menopausa se revoltaram. "LOKAL? QUEM TROUXE ESSA MERDA?" Marcelino deu uma risada amarela. "É muito boa!" A revolta aumentou quando eles se depararam com a carne. "MIOLO DE ACÉM? QUEM FOI O F*LHO DA PUTA?" Marcelino se defendeu. "É saborosa." E a revolta chegou ao ápice no momento em que o grupo checou o restante dos ingredientes. "PÃO COM BROMATO? TOMATE RACHADO? ASA DE FRANGO? BARÉ COLA? VAMO DAR UM PAU NESSE SAFADO!"
Marcelino estava acostumado com críticas, então colocou em prática seu plano B. "Calma aí, galera! Mexe bem o gelo que tem Heineken lá no fundo." Vendo que a maioria não estava convencida, Marcelino complementou. "E esses dois espetos da esquerda são de picanha! Com e sem alho!" Os ânimos se acalmaram logo após Geovaldo se dar conta de que precisava intervir. "Ou, rapaziada, pega leve! Tá até bão. Comparem com o Paçoca. O cara trouxe pomba! E peixe de esgoto!"
Marcelino foi salvo pelo gongo. Ou melhor, pelo irmão. Mesmo fazendo cara feia, o pessoal do Menopausa encheu o bucho com miolo de acém, asa de frango, molho de tomate rachado e cerveja Lokal. "Tem gente que nem isso tem", gabava-se Marcelino, mal sabendo que estava jurado de morte por alguns jogadores (que vomitaram e tiveram febre intestinal horas depois).
Marcelino até tentou trocar os ingredientes quando, novamente, chegou sua vez de preparar a "mordomia". Em vez do pão francês enorme, esbranquiçado e cheio de bromato, levou pão francês pequeno, saboroso e livre de produtos químicos. Só que feito no dia anterior. Ou seja: duro. Já a cerveja Lokal ele substituiu por vinho. Pena que tenha sido por um Sangue de Boi. E de R$ 4,99.
Foi aí que ele ganhou seu apelido: Marcelino Pão e Vinho. Só que ao contrário do protagonista do livro, onde um menino de seis anos salva seu monastério após uma visita de Jesus Cristo, o Marcelino de Araçatuba quase perde sua vida e visita Jesus Cristo antes da hora ao estragar a boquinha de seu grupo de futebol pela segunda vez.
Quem achou graça daquilo tudo foi Rosa, pois estava cansada das artimanhas de seu patrão muxiba. "MIZERÁVI FILADAPUTA! SE ESSA DISGRAÇA É A "HORA DA MORDOMIA", IMAGINA O QUE ESSE LAZARENTO SERVIRIA NA "HORA DA DUREZA"?"
É… Melhor não brincar com menopausas.
Seja o mecanismo biológico, seja um grupo de futebol.
Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista. Contato: celsodossi@gmail.com
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