Artigo

Marighella

Por Redação |
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O filme Marighella ainda nem estreou no Brasil e já está cercado de polêmicas. Não poderia ser diferente, já que o filme chega num momento de total polarização e seu personagem principal é, no mínimo, controverso. Marighella é um desses personagens icônicos na história do Brasil, cuja figura inspira amor ou ódio, sem meios-termos. Foi um militante de esquerda, escritor e político brasileiro, que organizou a ALN (Ação Libertadora Nacional), um grupo de luta armada contra a ditadura militar de 64. Viveu em uma época em que o governo censurava, torturava e matava militantes de esquerda. Seu grupo utilizou métodos que envolviam de assalto a bancos a sequestro de embaixador, o que levou Marighella a ser considerado o inimigo número um do governo na época. A mídia estampava seu rosto em jornais e divulgava seu nome no rádio como inimigo público. Em um Brasil sempre polarizado, parte da sociedade acreditava que ele era um vilão, enquanto a outra parte o via como herói que lutava contra o regime opressor. Foi deputado eleito, mas logo seu partido foi parar na clandestinidade.

Como escritor não fez muito sucesso. Sua obra mais conhecida e também criticada é o "Manual do Guerrilheiro Urbano", um livro que ensinava militantes políticos a viver na clandestinidade.

A história do Marighella sempre foi alvo de pesquisas e já foi contada em documentários, músicas, livros e filmes. Ele está presente no livro "Batismo de sangue", de Frei Betto, "O que é isso companheiro?" de Fernando Gabeira; ambos se tornaram filmes. Em 2017, foi homenageado em uma música dos Racionais chamada "Mil faces de um homem leal".

Nada, porém, causou tanto alvoroço quanto a anunciada estreia do filme Marighella no Brasil. A primeira polêmica do filme dirigido por Wagner Moura chegou antes mesmo da estreia: Seu Jorge, o músico e ator que interpreta Marighella, foi acusado de ter a pele muito escura para o papel, o que gerou uma enxurrada de memes nas redes sociais; muito conteúdo racista foi divulgado em forma de piada. Quando o filme estreou em Berlim, parte da sociedade brasileira, mesmo sem assistir ao filme, negativou seu histórico no IMDB (um dos principais sites de referência na área). A polêmica antecipada só está ajudando a divulgar o filme e o nome do personagem. Sem dúvida, teremos ainda muita gente amando ou odiando o filme. Mas é assim que a sétima arte mexe com os ânimos e faz o homem pensar. Discussões, quando cordiais, nos ajudam a chegar a novos consensos.

Fernando Anhê Santos é professor universitário


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