Artigo

Original Civilização

Por Redação |
| Tempo de leitura: 2 min

Incorrigíveis são as mães! Pais, idem! Avós, então, nem se fala! Enaltecem virtudes com despudorada desenvoltura e minimizam falhas com espantosa condescendência! O amor enxerga virtudes imperceptíveis a leigos olhares. E guarda inesgotáveis reservas de compaixão e perdão.

Pais/avós representam a palpável referência do encanto divino pela criatura humana! Ao contemplar o ser feito à sua imagem e semelhança, Deus suspirou e viu que tudo o que tinha feito era muito bom! Aos olhos de Deus, essa criatura chamada homem/mulher, é essencialmente boa, bela, portadora de inumeráveis qualidades. Tem limitações, sim, mas o Criador reserva para si o direito de corrigir do jeito que julga mais apto para curar e salvar. Profundamente se magoa, em sua condição de Pai apaixonado, quando vê sua criatura predileta sofrer maus tratos e é sumariamente desprezada. Curioso, há gente que fica incomodada quando alguém, inspirado no amor divino, sai em defesa de seres humanos flagrantemente humilhados, enquanto entende, e até elogia, a superproteção oferecida por pais e avós. Nunca se pode, afinal, esquecer que, com aguda lógica, o preceito bíblico primeiro, referendado posteriormente por Jesus Cristo, orienta amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a si mesmo. Assim como na lógica humana não se cogita amar pais sem querer bem a filhos, na esfera religiosa Deus estabeleceu ser impensável reverenciá-lo sem respeitar a sua amada criatura!

Os benefícios práticos desta elementar lógica, quando aplicada para o cotidiano, são evidentes. É incomensurável o sofrimento que pode ser poupado quando se olha o semelhante com o olhar divino. Encontra-se aqui a chave capaz de dar à história novos e libertadores rumos! Contam-se em milhões as pessoas que regularmente leem a Bíblia, celebram os mistérios divinos e comungam ate o Corpo e o Sangue do Filho divino, entregues para a salvação do homem! Quando, contudo, se contempla a realidade do cotidiano, é se obrigado a reconhecer a abissal distância entre fé e vida! A Bíblia chama de mentiroso o sujeito que afirma amar Deus, mas vive de costas para o seu semelhante. Tem se comentado, ultimamente, quanto ao fenômeno recorrente do distanciamento de fieis das igrejas! A explicação primordial para tal fenômeno emerge quando se leem as narrativas que descrevem a vida das primeiras comunidades cristãs. Aquelas comunidades atraiam adeptos não em função de elaboradas liturgias, nem pelo impacto de curas milagrosas, mas unicamente pelo testemunho da caridade fraterna vivida espontânea e radicalmente. Celebravam a Eucaristia e viviam eucaristicamente!

Autênticas referências são mães, pais e avós quanto à pétrea verdade: o amor ao genitor envolve necessariamente respeito profundo pela prole! Transferir esta lógica para a moral religiosa gera necessariamente nova e original civilização de amor!

Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

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