Vivem muitos uma fé estática. Sem dar-se conta suficientemente, sua crença, como também a maneira como vivem a religião, não mudaram desde os tempos do catecismo. Tudo evolui na vida, ciência, tecnologia, cultura. E o contexto geral, obviamente, acaba afetando rotinas e comportamentos. Menos a religião, pelo menos para quem cultiva uma fé inerte! Vivem as mesmas práticas religiosas de anos atrás. Fossilizadas, a fé e, consequentemente, a prática da religião, se transformam em apêndices sem nenhum reflexo na vida. Uma fé de enfeite! Uma fé morta!
Em sua essência a fé desinstala. Quem acredita em alguém, quem abraça uma convocação, se mexe. Viaja! Viajar não se reduz somente ao deslocamento no espaço físico. Quem aprofunda conceitos também viaja. Quem amplia horizontes cognitivos também viaja. Quem retoca atitudes também viaja. Avança e se ajusta de acordo com a fidelidade à sua crença. Frequentemente, esses ajustes são penosos. Exigem abandono da rotina. Impõem o afastamento das zonas de conforto. Crer é pôr-se sempre em marcha. Principalmente, quando si trata da fé religiosa. O autêntico crente, ciente que Deus é mistério, realidade que transcende e ultrapassa todo conhecimento humano, está sempre em busca de aprimorar seu entendimento. E a cada avanço, aprimora conceitos, ajusta atitudes, retoca preferências. Nem sempre este caminho é fácil. Não raramente, demanda persistência, em especial quando o andar indica pífios progressos. Ou exigentes revisões. Caminha-se, e quando se imagina que já se chegou, descobre-se que ainda há um longo caminho a ser percorrido. Motivado, contudo, por um incontrolável impulso em busca de um entendimento sempre mais apurado, o crente não desiste. Busca. Avança. Crer é pôr-se sempre em caminho, não de forma atabalhoada e inquieta, agitada e incerta. Mas acompanhado daquela serena sensação de quem sabe estar no caminho certo, com a clara consciência, todavia, de ainda restar lhe uma estrada a ser percorrida. A distância da meta não é motivo de frustração, nem de desânimo. Ao contrário, representa vigoroso incentivo para seguir caminhando, sem perder o entusiasmo! Consciente está que, afinal, chegará ao destino!
Em estado fóssil, a fé é uma realidade contraditória. O que deve ser motivo de criatividade constante, transforma-se em mediocridade. Resiste a mudanças. Escolhe o conforto da inércia. Aborta reflexões. Elimina cobranças. Ilude-se na repetição protocolar de rituais, que consomem tempo, às vezes até dinheiro, sem proporcionar, no entanto, verdadeiro repouso. Assim como água parada gera lodo e favorece a criação de insetos, uma fé estagnada distorce dogmas, induz a ambíguos comportamentos e alimenta equivocadas crendices e deletérias superstições! Fossilizada, a fé atrofia! Viva, a fé desinstala e põe em marcha!
Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba
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