ARTIGO

A mentira também evolui

Por Cloviz Vaz |
| Tempo de leitura: 3 min

Há quem acredite que a política ficou mais agressiva por causa das redes sociais. Eu nunca comprei essa explicação pela metade. As redes aceleraram muita coisa, mas não inventaram o conflito. O que elas fizeram foi dar velocidade, escala e precisão a um velho hábito da humanidade: acreditar mais facilmente naquilo que confirma nossas convicções. 

Foi por isso que Engenheiros do Caos, de Giuliano da Empoli, me chamou tanto a atenção. Não porque revelasse um segredo escondido, mas porque colocou ordem em fenômenos que eu já havia observado acompanhando campanhas eleitorais, inclusive na Itália. O livro serviu como uma espécie de legenda para um filme que eu já tinha assistido. 

Da Empoli descreve um momento em que a política percebeu que convencer deixou de ser a única estratégia possível. Muitas vezes basta mobilizar. Em outras, basta dividir. A informação já não circula para formar consensos. Ela circula para fortalecer tribos. 

Nesse ambiente, fake news e teorias da conspiração não aparecem como acidentes de percurso. São produtos de uma lógica em que emoção costuma derrotar contexto e velocidade quase sempre vence profundidade. Não é um fenômeno exclusivamente italiano, britânico ou americano. Apenas começou a ficar mais visível nesses lugares antes de se espalhar pelo resto do mundo. 

O aspecto mais interessante é que esse mecanismo não depende necessariamente da mentira. Muitas vezes, ele funciona com meias verdades, recortes, omissões ou fatos apresentados fora de contexto. A informação deixa de valer pelo que explica e passa a valer pelo efeito que produz. O debate perde espaço para a reação instantânea, e a política acaba sendo empurrada para um ambiente em que repercutir vale mais do que convencer. 

O curioso é que a tecnologia costuma receber toda a culpa. Como se os algoritmos fossem os responsáveis por aquilo que escolhemos compartilhar. Não são. Eles potencializam comportamentos que já existiam. A mentira encontrou ferramentas mais eficientes. A vaidade também. O desejo de ter razão, sobretudo quando ela cabe em um título de quinze palavras, ganhou um impulso que nenhuma geração conheceu antes. 

Isso muda profundamente a comunicação política. Quem trabalha com campanhas sabe que as ferramentas se multiplicaram numa velocidade impressionante. Segmentação, inteligência artificial, bancos de dados, plataformas digitais. O arsenal cresce a cada eleição e continuará crescendo. 

Talvez seja esse o principal mérito de Engenheiros do Caos: mostrar que o problema nunca esteve apenas na tecnologia, mas na forma como ela reorganizou a disputa política. As plataformas mudam, os recursos se sofisticam, surgem novas maneiras de falar com milhões de pessoas ao mesmo tempo. Mas a responsabilidade continua sendo de quem decide como usar esse poder. 

A discussão importante, portanto, não é se essas ferramentas serão usadas. Elas serão. A pergunta é outra: que tipo de política queremos construir com elas? 

Tecnologia nunca substituiu caráter. Uma campanha pode ser moderna sem abandonar princípios. Pode ser eficiente sem transformar o adversário em inimigo. Pode disputar voto sem abrir mão do respeito. 

No fim, essa talvez seja a única regra que resiste ao tempo. As ferramentas mudam. A responsabilidade de quem as utiliza continua exatamente a mesma. 

  

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