Cena principal: A banda musical se prepara, toda de branco, com seus quepes brancos, esperando o sinal do maestro para começar o repertório musical. Ninguém aguentava o calor que fazia em Piracicaba. No meio do público, aglomeração generalizada, alguém solta: “será que terá boca-livre?”.
Bom. É imaginação. Mas, a cena pode ter ocorrido durante a inauguração de uma placa de bronze, de um monumento ou talvez uma inauguração qualquer. Pode ser sido recentemente ou, provavelmente, muitos e muitos anos atrás.
Pode ter ocorrido durante inauguração, no final dos anos 1950, quando Luciano Guidotti foi homenageado com placa que ainda hoje existe no Mercado Municipal com a inscrição “Ad perpetuam memoriam rei”, ao prefeito que dedicou-se à canalização do Ribeirão do Itapeva.
Confesso que a última inauguração de um monumento da qual participei foi a pouco mais de oito anos atrás, quando Piracicaba completou 250 anos e, no Engenho Central, foi inaugurado o Marco Zero de Piracicaba, ou algo assim. Uma pedra referenciando o ponto de partida de onde surgiu nosso querido município.
Monumentos, coretos, obeliscos, jazigos ... Muitos deles estão instalados em nossa cidade. Em todos os bairros. O próprio Jornal de Piracicaba os catalogou em 2017 numa coluna chamada “Memória e História Esculpida” explicando o que é aquela mãe com duas crianças na entrada do Mirante ou quem fez o pórtico colorido da ESALQ representado por trabalhadores rurais. Um trabalho necessário para que a história e seus autores não caiam no esquecimento. Assim como o próprio JP fez com nossa pinacoteca a céu aberto: as paredes do Cemitério da Saudade, publicando livro com obras na parede assinadas por vários autores.
O avançar da sociedade, já no final dos anos 1970, clamava por modernidade. “Então, vamos tirar todos os monumentos da praça José Bonifácio, a praça central da cidade, levando um ar mais novo para o calçadão planejado”, pensou alguém. Lá foram alguns monumentos. Alguns ficaram e ainda estão lá, como o que homenageia Luiz de Queiroz. Mas saíram o monumento a Mário Dedini (hoje em frente a Igreja Imaculada Conceição da Vila Rezende) ou o monumento ao Soldado Constitucionalista. Este, uma obra do italiano Lélio Coluccini, foi erigido com doações do povo que se cotizou para manter viva a memória dos piracicabanos que faleceram na Revolução Constitucionalista de 1932. Sua inauguração ocorreu em 7 de setembro de 1938. Ele foi desmontado e peça por peça foi levado e montado na praça situada em frente ao Cemitério da Saudade. Ego ferido, muitos piracicabanos não se contentaram com a iniciativa. “Imagina ! Mexer com o luto de muitas famílias que perderam seus entes queridos que partiram defronte do Teatro Santo Estêvão, local onde estava o Monumento!”, pensou alguém. Até que em 1988, por decisão do Supremo Tribunal Federal, tal Monumento retorna a praça José Bonifácio. Transporte difícil, pedra por pedra, pedaço de bronze por pedaço, e com ele, o intangível: a alma dos piracicabanos que tombaram pela democracia a qual ainda hoje respiramos.
Monumentos, obeliscos, edifícios ... Há uma áurea especial em preservá-los principalmente por sua arquitetura que representa uma nostalgia ou um trabalho com afinco que enche nossos olhos quando, por exemplo, vemos as gárgulas existentes na Escola Estadual Barão do Rio Branco, no Centro. Ou pensar em dois monumentos que sumiram com o tempo: o Obelisco dos anos 1950 instalado em frente ao Ginásio Waldemar Blatkauskas durante os Jogos do Obelisco ou o Monumento aos 200 anos de Piracicaba erigido em frente a Casa do Povoador. Mistérios que ainda sondam nossa cidade ....
Aí chegamos no ponto mais nevrálgico possível. Triste ponto. A quem compete a preservação disso tudo? Se uma lixeira é colocada pelo poder público para que não joguemos lixo na rua, trabalha-se com a educação. Porém, houve investimento financeiro para sua compra. Quem financia o poder público? O cidadão com seus impostos. Não precisa ser falado mais nada. Preservar um bem público é papel do cidadão. Pirâmides no Egito, Corcovado no Rio de Janeiro ou Torre Eiffel em Paris. São fontes de renda para o turismo? São, sim! Se não preservarmos não temos este turismo e com ele a economia não gira.
Resumindo, que tal cada um cuidar do seu monumento, do seu obelisco, do seu coreto? A história e a sociedade agradecem!
Edson Rontani Júnior, jornalista e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba