
A sucessão das fases na existência de cada pessoa é assunto que, de longa data, intriga e estimula o cérebro de médicos, psicólogos e educadores.
Recordo que li, anos atrás, um livro muito interessante de um sacerdote e médico espanhol, de nome Alejandro Roldán. O título do livro era "Las crisis de la vida sacerdotal y religiosa". O médico-sacerdote analisava, nesse livro, as sucessivas fases da vida sacerdotal e religiosa, desde o adolescente que ingressa num seminário ou noviciado, até o fim da vida, passando pela formação, pela juventude, pelos primeiros tempos de seu ministério, pelo amadurecimento, pela meia-idade e, por fim, chegando ao declínio. Numa ótica não apenas religiosa, mas também e sobretudo médica, o autor ia descrevendo as sucessivas dificuldades que apareciam na vida dos religiosos e como umas se relacionavam com as outras, dependendo umas da melhor ou menos perfeita superação das anteriores. Do ponto de vista psicológico, achei esse livro de grande interesse, pois continha muitas informações e reflexões úteis não só para religiosos, mas também pela generalidade das pessoas.
Li muito sobre os modelos familiares comparados, o patriarcal, que cheguei a conhecer bem de perto (minha avó gerou 19 filhos, uma irmã sua teve 12 e outra teve 8 ou 9), e o nuclear, hoje predominante. Li também sobre os efeitos psicológicos causados pelo abandono do modelo patriarcal e a adoção do modelo nuclear. Entre outros efeitos, essa mudança ensejou a caracterização de um fenômeno que antes, se é que existia, era tão tênue que passava despercebido: a chamada adolescência.
No modelo patriarcal, a passagem da infância para a vida adulta era gradual, sem sobressaltos. Havia íntima convivência de pessoas dentro de uma mesma geração (relacionamento intergeracional), como também entre gerações diferentes (transgeracional). Era comum conviverem tios e sobrinhos quase da mesma idade, era comum crianças de 8 ou 10 anos se responsabilizarem pelos irmãos menores, assumindo o papel de auxiliares dos pais na educação dos irmãos. Quando havia desentendimentos, logo tudo se ajeitava, pois atuavam inúmeros mecanismos de "acolchoamento" das relações, meios de apaziguamento e pacificação. Nesse contexto, não havia adolescência como hoje se entende, ou seja, uma fase quase em conflito dialético com a infância, e também em conflito quase dialético com a geração dos pais.
Numa vida bem ordenada, cada uma das fases, desde a primeira infância até a extrema velhice, não deve confrontar-se dialeticamente com a anterior, mas deve completar harmoniosamente a anterior. O conjunto da vida não deve ser, pois, uma sucessão de conflitos e rupturas sucessivos, mas uma sucessão de acréscimos e aperfeiçoamentos não conflituosos. A vida dos homens, assim como a história das nações, se faz muito mais de continuidades do que de rupturas. Rupturas, é claro que existem, mas excepcionalmente, não como regra geral.
Assim, a adolescência não deve ser a recusa do período infantil, mas uma abertura de horizontes e um aprofundamento da infância. A mocidade, com seus ardores, seus ideais e seus entusiasmos, não deve ser oposta à adolescência, mas sua continuação. O casamento e o início da vida profissional, com as responsabilidades daí decorrentes, não devem significar o rompimento com o que veio antes, muito pelo contrário. A chegada da maturidade e da meia-idade, não deve acarretar, como muitas vezes acontece, a negação de todo o idealismo e ardor da juventude, mas deve confirmar e fortalecer os ideais do jovem. E, por fim, a velhice não deve ser entendida como uma desgraça, uma fatalidade infeliz, mas como o coroamento de um processo de vida.
Muitas faculdades físicas e intelectuais vão diminuindo com o avançar da idade. Mas algumas são preservadas e até mesmo se aguçam com a experiência acumulada e com a visão de conjunto que o decurso do tempo proporciona. É por isso que muitos escritores ou artistas produziram, no fim da vida, suas obras mais geniais.
Todo grande homem, por mais idoso que seja, sempre soube conservar algo de menino dentro de si. "Eu sou um menino que cresceu por distração", versejou meu grande e saudoso amigo Paulo Bomfim.
Armando Alexandre dos Santos é doutor na área de Filosofia e Letras, membro da Academia Piracicabana de Letras e do IHGP.