
Estúpido, como se sabe, é aquele ou aquilo que provoca emburrecimento. Ou seja: o não inteligente. Qualquer pessoa, pois – com pouco possa discernir – procura e, também, luta para evitar o que a perturbe. Até as milenares ideias de céu e de inferno despertaram, na humanidade, a consciência entre bem e mal, bom e ruim. A dualidade nos acompanha desde o nascedouro. Homem, mulher; claro, escuro; noite, dia; quente, frio. O meio termo pouco satisfaz. Já no Apocalipse, está a advertência: “Porque és morno vomitar-te-ei de minha boca”. A vida também o faz.
Se isso ocorre com o ser humano individualmente, como seria com cidades habitadas por povos mornos? Piracicaba, historicamente, fugiu à mediocridade da indiferença. Prova-o a mais do que bicentenária história de construção civilizatória. Basta lembrarmo-nos do que – com antevisão progressista – nossos ancestrais realizaram na implantação de telefonia e de energia elétrica.
É uma história, a nossa, com singularidades comovedoras. Não por acasos, tornamo-nos – pelo entusiasmo dos que assim nos reconheceram – o Ateneu, a Atenas Paulista, a Cidade das Escolas, a Florença Brasileira, nós, filhos da eterna “Noiva da Colina”. Até mesmo como criadores da “caipirinha”. Logo, uma herança que condenaria os herdeiros que a malbaratassem.
Temos que admitir: essa invulgar riqueza humanista foi ignorada nos últimos anos. Não nos culpemos, porém, apenas a nós mesmos. O planeta tem sofrido o impacto de uma visão quase que apenas materialista da economia. O “mercado sem regras” ignora os que “não produzem e não consomem” conforme suas regras. E é essa concepção – na qual prevalece o individual sobre o coletivo, o privado sobre o público – que educa, orienta e influencia nossa juventude. Teima-se em consolidar a “lei de Gerson”: “é preciso levar vantagem em tudo”.
Ainda que não totalmente – mas com evidências preocupantes – instala-se a estupidez, normaliza-se o emburrecimento. A palavra poluição quase já se confunde com derrota, com fracasso. Faz-se parte do cotidiano. No entanto, poluir é “tornar sujo, manchar, corromper, conspurcar, denegrir”. E, também, profanar. É, pois, o sagrado das pessoas, das famílias, da população, que se vai conspurcando.
Percebe-se o início da indignação contra a crescente poluição sonora. Trata-se, esta, de gravíssima ameaça à população. O som consegue elevar-nos aos céus quando música, entendida como realidade privilegiada e divina ao homem. É a arte apolínea. Portanto, da claridade, da beleza, da luz. Mas, torna-se infernal ao ser utilizado como barulho, algazarra, estrondo. Há o som de harpas e violinos; há o som dos canhões e dos fuzis.
Não são as motocicletas que trazem o som dos antigos infernos à população. São alguns daqueles que as pilotam, ditos “motoqueiros”. Os que o fazem apenas demonstram serem estúpidos e, portanto, não inteligentes. E ainda mais grave: comprometem a grande maioria dos que – com suas motos – servem a sociedade através de serviços e atendimentos essenciais. Antes, portanto, de serem punidos teriam que ser reeducados. E empresários, que as vendem, deveriam exigir prova mínima de maturidade e competência intelectual dos que as adquirem. Pois, estúpidos são incompetentes.